Quando a vida se torna um processo

Tenho acompanhado muitos exemplos de pessoas interessantíssimas que compartilham a vida em processo, escolhas de vida, mudanças de rumo, crises, viradas, que me inspiram enormemente para o meu processo.

Conhecer pessoas que viveram coisas boas, que também passaram por crise e conseguiram dar a volta, histórias de superação, de conhecimento, de aprendizagem, me fortalecem muito porque me mostra que eu não estou sozinha – tem muita gente aí no mundo fazendo isso também, sentindo e vivendo coisas parecidas. E aí me dou conta que eu não tô louca, sabe, que é normal sentir isso, e que também é possível dar a volta, conquistar espaço, mudar, trabalhar, e viver uma outra vida.

Vou deixar aqui algumas referências:

Um livro que me inspirou muito é Comer, rezar e amar, que acabou adaptado para a tela com Julia Roberts. O livro conta muito a crise da escritora Elisabeth Gilbert, e é meio autobiográfico, dela vivendo a crise, e pensando, se reorganizando para sair dela. Vale a pena conferir o livro. Inclusive, ainda sobre essa autora, tem uma palestra TED onde ela fala de criatividade que é ótima. Depois vou escrever um post sobre criatividade e postar o link aqui.

Outra referência maravilhosa, uma pessoa que eu considero iluminada de tão sábia, que acompanho aqui no meio virtual e já vi pessoalmente em palestras é a Ana Thomaz. Uma mãe educadora que mudou sua maneira de pensar/viver/experimentar a vida depois que teve os filhos, e que hoje considero revolucionária, pois está implementando um processo educativo diferente. Se tiver curioso veja esse video aqui dela. E se continuar interessado, veja este vídeo em que ela explica o que é Desescolarização. E entre no blog dela aqui.

Outro grande inspirador da mudança e da apropriação do próprio processo é o Seiti Arata, que generosamente mantém vídeos de empreendedorismo, leituras interessantes e reflexões sobre a vida moderna.

Por último, mas igualmente inspirador, é o canal continue curioso, no youtube que entrevista pessoas que mudaram suas vidas e acompanha processos pessoais de algumas pessoas. Muito lindo mesmo, de chorar.

São esses exemplos que me inspiram, pois mostram que a vida é um processo, e como diz Ana Tomaz, ta na hora de profissionalizar a vida –a gente tem vivido de maneira muito infantil, muito amadora. Vamos nos conscientizar das nossas escolhas, arcar com as consequências concretas, investir no que interessa, e desinvestir o que não interessa. Seguir o coração, mas consciente de cada passo. ❤

A gente não nasce pronto

A gente nasce pra aprender, pra ter experiências, para experimentar. Ninguém vem pronto pro mundo.  E é isso que é bom, encarar a vida como um espaço de aprendizagem, um laboratório de experimentação, de crescimento, acumular experiências, fazer escolhas. Fazer escolhas e ser ativo nelas, atuar mesmo, e não simplesmente se acomodar e deixar rolar, sem assumir os sonhos e as direções para onde deveria estar caminhando.

Tirar da cabeça que tem uma idade certa para fazer alguma coisa. As coisas vão acontecer no momento certo que tiverem que acontecer, quando você estiver pronto. A pior coisa que tem é ficar alimentando ressentimentos e mágoas, criticando o passado, porque lá no passado, quando você fez determinada escolha, ela era a melhor escolha que você poderia fazer naquele cenário, com aquela idade, com os parâmetros que você tinha.
Se você olha para trás e descobre que não pensa da mesma maneira que antes, parabéns, isso significa que você cresceu, que você mudou. Mas não aceitar o passado só trás infelicidade, e enfraquece a nossa força, porque aquilo que se faz lá trás é parte estruturante do que você é hoje. Foi importante acontecer como aconteceu, e hoje você é isso que é hoje graças ao seu passado.

E se tem coisas que você ainda não fez mas queria muito fazer, esse é o momento de fazer. A hora certa é sempre hoje. Bora correr atrás do que faz feliz, dos sonhos, dos desejos reais e fazer o futuro mais parecido com o que a gente gostaria que ele fosse. ❤

Porque eu comecei a fazer teatro

Fiz um vídeo contando um pouquinho como que eu fui me envolvendo com teatro, e também para mostrar que às vezes você até sabe mais ou menos o que quer fazer, mas não se enquadra em uma profissão específica.

Acho que se trata muito mais de conhecer as verdadeiras aptidões e as possibilidades de viver plenamente, do que se enquadrar em uma caixinha específica. Encontrar a sua missão mesmo, e deixar de fora as escolhas artificiais que nos prendem a apenas uma maneira de fazer aquilo que a gente realmente nasceu pra ser.

As artes (não só o teatro) ajudam muito as pessoas a conseguirem ser mais criativas, não só na criação de uma obra artística, mas em descobrir oportunidades criativas de viver, no cotidiano, valorizando pequenos momentos para ser algo mais gostoso e mais personalizado daquilo que é seu.

As vezes a pessoa já se formou em um campo que gosta, tem interesse, mas não consegue na prática colocar seu amor. Por exemplo, eu fiz biologia né, então estudamos muito o meio ambiente, os seres vivos, os ciclos ecológicos… mas uma grande parte dos empregos que pedem biólogos são empresas que precisam de uma autorização para poluir, desmatar, destruir a natureza. Olha que crise! A pessoa estuda e ama a natureza e acaba sendo um colaborador de empresas poluidoras.

Por isso, é muito importante continuar procurando, buscar alternativas, criar possibilidades para exercitar suas aptidões, desejos, vontades no mundo. Conhecer seus interesses, suas facilidades, características bem pessoais, que só você é capaz de fazer, e de colocar no mundo de maneiras múltiplas, criativas, produtivas, emancipadoras. E não desistir no primeiro obstáculo ou frustração – ir buscar, e também, através da sua ação gerar exemplos para os outros. É o que eu to tentando aqui, depois vocês me contam se funciona 😉

Assuntos árvores e assuntos bigodes

 

O nome do projeto condensa na verdade meus grandes interesses na vida.

Assuntos árvores para mim são assuntos construtivos, que geram frutos, que possuem raízes, assuntos que formam uma rede de conhecimentos, que falam sobre processos de vida, experiências, natureza, sabedoria. Processos pessoais, histórias inspiradoras, lados terapêuticos e holísticos, e ecológicos.

Enquanto os assuntos bigodes são os assuntos cabeludos, filosóficos, assuntos que as vezes nem temos propriedade para falar mas que geralmente todo mundo quer dar pitaco; assuntos que podem ser tabu, mas também assuntos que podem ser complexos, que pedem um pouco mais de método e atenção para refletir a respeito, e que nem sempre é fácil assimilar. Assuntos científicos, ou filosóficos, assuntos contemporâneos, assuntos humanísticos.

E resumem duas grandes paixões, a ciência (assunto bigode) e a arte (assunto árvore).

No fundo é tudo a mesma coisa né, mas a gente tem mania de querer separar pra pensar, e aí achei que ia ficar bonito assim. Até porque eu adoro usar bigode (quem já me viu no facebook sabe) e também AMO árvores, floresta, natureza. É isso. Acho que é. Alguma dúvida? Hahaha

Assumindo o que eu sou

Finalmente consegui iniciar esse projeto. Esse projeto tem uma relação muito grande com o que eu sou de verdade, não apenas as formações, estudos, profissionalmente falando, mas escolhas profundas do meu ser. Então entrar em contato realmente com o que eu sou, trazer minha criança, permitir e aceitar que eu seja assim, tem me transformado enormemente de uma maneira muito positiva, pois cada vez sofro menos (tentando ser o que não sou) e sinto mais realização e prazer buscando atividades e conhecimentos que realmente me interessam.

Esse é o meu primeiro vídeo onde eu conto um pouquinho sobre o quanto me escondi com meu sotaque de curitibana, e um convite para você refletir se tem alguma coisa que te incomoda ou que você tem vergonha de ser ou fazer.

 

Apresentação

A minha experiência me impulsionou para uma trajetória sinuosa ao redor de diversas áreas de interesse. Geminiana, muito curiosa, desde cedo gostava muito de estudar e investigar coisas novas que apareciam à minha frente, desde a vida das formigas, até a distinção de estrelas e constelações. A ascendência em touro assegurou que eu fosse determinada, obstinada, mesmo que os caminhos fizessem curvas e com mudanças de percurso, não desistiria antes de alcançar aquilo que me arrepia, emociona, me descontrola e me deslumbra.

Jovem, absolutamente todas as matérias escolares me interessavam. Adorava literatura com a mesma intensidade que matemática, e tive profunda dificuldade em escolher uma carreira vocacional para seguir. Sempre tinha a sensação que escolher um trajeto me deixava órfã de todas as outras opções que eram negadas a partir de uma única escolha. A medida em que me aprofundava em determinados conhecimentos, sentia que meu universo não estava completo, e acabei me dedicando em sempre preencher as lacunas que faltavam. Fiz dança por um tempo considerável, mas tinha uma opinião e um julgamento sobre meu próprio corpo que me fez desistir de minha aptidão. Passei pela faculdade de Letras, e embora me deliciasse com leituras e discussões, não achava aquele universo desafiador o suficiente para minhas indagações. Eu era jovem e portanto arrogante, queria compreender o mundo, as diferenças, queria encontrar o sentido da vida, talvez vida em outros planetas, ou quem sabe uma grande descoberta que afetaria o trajeto da humanidade?

Gostava tanto de história que me dediquei ao estudo da biologia, simplesmente porque acreditava que a história começava antes dos seres humanos existirem. Considerava o ser humano muito ensimesmado, e pensei que o conhecimento a respeito de outras formas de vida e a interligação entre elas seria uma formação interessante. Optei por um curso que considerei mais generalista, ciências biológicas, que me permitiria estudar aspectos da física, da matemática, da química, e também algo relacionado à vida e às relações. Desejava simplesmente investigar a vida.

Na faculdade, apesar de amar as novidades, me espantei com a burocracia e o ensino tradicional, arcaico, pautado na memorização e em poucas atividades criativas, ao mesmo tempo que me deslumbrava com o pensamento científico e as investigações que tomei parte. A formação em ciências é exageradamente impessoal, e negar a minha pessoa, meu alongado corpo de dançarina, meu estado físico-emocional para completar uma carga horária absurda era uma das minhas maiores reclamações. E mesmo estando encaminhada na formação em ciências, sentia muita falta das áreas humanas, leituras e questões críticas, e acabei investindo na licenciatura, passando por momentos saborosos de compreensão a respeito da sociedade, suas mazelas e conquistas, e também a respeito do maior poder que o ser humano pode ter: conhecimento, e o processo ensino- aprendizagem.

Na formatura me via ainda despreparada, pois não vi na formação as questões contemporâneas da vida. Emendei um mestrado que trouxe para a cabeceira da minha cama filósofos incríveis, assim como os maravilhosos estudos culturais, que investigavam de perto a vida contemporânea em seus aspectos mais cotidianos: consumo, informática, vida virtual, e também os estudos de gênero, sexualidade, etnia, juventude. Me sentia conectada a todos eles, como se pudesse compreender melhor o mundo aconselhada por Foucault e com base em várias leituras de Bauman.

Mas durante o mestrado, me rebelei: sentia que quanto mais perto eu estava das questões que queria tocar, como gênero, sexualidade, juventude, mais soava hipócrita e banal os discursos. Via muitos acadêmicos de cadeira discursar sobre conceitos esquerdistas, de emancipação e ações afirmativas em relação à mulher, ao negro, aos homossexuais, mas com atitudes completamente opostas, recheados de machismos, sexismos, racismo e homofobia. Com medo do que estava me tornando, abandonei a carreira acadêmica brilhante que tinha pela frente e fui investigar o mundo real.

Me tornei professora de escola pública, e mesmo tendo investido em tanto estudo, não soube o que fazer diante de tantas dificuldades. Os anos de dedicação e estudo não me davam nenhum suporte para lidar com as crenças, culturas, violências e rebeldias da vida escolar. Imaginei que me faltava tato, arte, carinho. Ingressei no curso de artes cênicas com a esperança de melhorar minhas aulas e meu trato com os alunos, e fui fisgada para o fabuloso universo artístico.

A arte revolucionou minha maneira de estar no mundo. Tudo que eu havia construído ruiu: casamento, profissão, casa e futuro. Abandonei a carreira, passando a me dedicar inteiramente ao ofício artístico. Descobri o treinamento de atores e vivi uma sensação nostálgica de bem estar dentro de mim mesma. Estava (re)descobrindo o universo da minha infância, da verdadeira Maíra. A meditação e a terapia também me ajudaram muito na época desta transformação.

A maior dificuldade da vida, pode-se dizer que na verdade são duas: encontrar aquilo que realmente mexe com suas entranhas, e encontrar os verdadeiros parceiros da sua jornada. (E o maior desafio talvez seja abandonar aquilo que não é verdadeiro, tanto parceiros que seguem caminhos diferentes, como escolhas e caminhos que não condizem com o que se sente, mesmo já tendo caminhado ao lado deles, ou em direção de coisas que não fazem sentido. Muita força, muita coragem para abdicar do que já é estável em prol de ‘apenas’ um instinto, uma sensação de mal estar, incompletude e tristeza e também uma intuição de que a vida pode ser mais do que isto.). Com dificuldade, encontrei algumas pessoas que também viam sentido em uma vida de pesquisa corporal, e que mesmo sendo artistas, não vislumbravam apenas uma vida de fama e aplausos, e fundei um grupo de teatro cujo objetivo não era produzir trabalhos simplesmente, mas reunir investigadores da arte do ator, o GRUTTA TEATRO.

Por estar em um lugar tão apropriado, decidi retomar o caminho da pesquisa e da academia, investindo em pesquisa e formação em áreas do corpo, da arte, e (porque não?) da educação. Agora, mais segura da necessária relação entre teoria-prática, e também mais consciente da distância entre vida real e elocubrações racionais, estive envolvida com grupos de estudos e formações de artes corporais, como Laban, Feldenkrais, Angel Vianna, terapias, Constelação Familiar, meditação e também danças e artes marciais. Cada um desses grupos e conhecimentos me deram uma pecinha a mais para completar o mosaico de conhecimentos que hoje reconheço ter a respeito da vivência corporal, que tendo passado pelo meu próprio corpo, agora posso compartilhar com outros corpos.

A quantidade de mágoas e culpas que carregamos em nossas simples vidas é exagerada. Livrar-me das máscaras e dos ressentimentos me tornou uma pessoa melhor. Hoje acredito na razão e também na emoção, mas todos centrados em um único lugar: o corpo. Este lugar que habitamos, nossa primeira casa no mundo, que tão pouco dedicamos a conhecer, e que tão facilmente abandonamos é o único e verdadeiro elo com o mundo, comigo mesma, e com os outros. Sem corpo não há amor, não há descoberta, não há movimento. E tendo nascido mulher, que lugar mais belo, mais deslumbrante e também mais culpado, desconhecido e julgado para investir.

Investigá-lo é também abrir-se para o conhecimento científico. Mas com a coragem de estar do lado de dentro, nunca afastado ou impessoalmente olhando de fora. É também abdicar de pensamentos prosaicos e moralistas a respeito do que é o corpo. Defrontar-se com dogmas religiosos, e também com moralismos sociais, com todas as nossas crenças do que é adequado, inadequado, belo, feio, apropriado, estranho. É quando nos deparamos com as heranças, hereditárias, seculares, da nossa linhagem, nosso povo, nossa família, nossas raízes. Saber fazer a colheita, separar o joio do trigo e ficar apenas com o que é seu, é uma grande viagem que tem um único objetivo: felicidade  encarnada, no corpo, imediatamente, verdadeiramente.

Agora, já mais segura do que falta e de quais questões devo afrontar, me sinto mais forte para ajudar outras pessoas a descobrirem seu lugar no corpo feminino e na sociedade em que nos encontramos. Vejo esta pequena caverna feminina como uma saleta do GRUTTA TEATRO, com questões mais específicas a tratar. Aqui me permitirei falar de modo abrangente e direto tudo que considero interessante, confiável e pertinente ao universo feminino, desde saúde, corpo, estética, até leituras feministas, depoimentos e psicanálise e com especial enfoque nas metodologias corporais. Numa tentativa de organizar o meu conhecimento para o mundo e ajudar a outras mulheres a encontrarem a felicidade de ter seu corpo como residência. Um corpo feminino, com tudo que é de direito, com tudo que lhe foi negado, e com tudo que tem de melhor.