Ainda sobre o parto

Me chamam de romântica por acreditar que o parto deveria ser um trabalho espiritual.

Falaram que meu texto não tem valor porque não é cientifico.

Me julgam de ingênua por defender uma imersão no processo de parto, por acreditar que há um mergulho que muda profundamente corpo e alma da mulher.

Me disseram que o que eu escrevi sobre parir é um desserviço porque idealiza e fetichiza o parto, realocando a mulher na condição de femea mamífera, enfeitando com gliter e menção a deusa estabelecendo uma nova forma de opressão as mulheres.

Em algum ponto que eu não entendi ainda disseram que eu fiz a distinção entre parto vaginal e cesária, e que ninguém é menos mãe por ter cesárea.

E ainda me chamaram de machista.

Logicamente tais sentenças mexeram muito comigo.

Eu, que acredito no direito das mulheres, na humanização do parto e da assistência, eu que defendo o protagonismo da mulher e da criança.

Eu que não julgo, busco não agredir, não criticar de maneira direta ou clara certas escolhas – que na verdade não tem nada de escolha, pois não há uma real consciência da implicação das consequências da mesma, vide mulheres que fazem cesárea eletiva porque são induzidas pelos médicos e sua conveniência e que não apresentam os riscos da cirurgia e os benefícios do processo natural – mas procuro aceitar, compreender que estão imersas em sistemas sociais opressores que muitas vezes nem tem clareza da existência e que ainda mencionam que fizeram cirurgia porque quiseram, e usam o bordão “meu corpo, minhas regras” como se estivessem fazendo algo fora da regra.

Fiquei intrigada.

Como a linguagem lírica pode ofender tanto? Se eu tivesse escrito um texto dissertativo, racionalista, racional talvez tivesse um pouco mais de receptividade, já que acredito nessas coisas que cito acima.

Por que o sagrado feminino é visto como opressão machista? Se, principalmente no Brasil, vivemos sob o domínio de religiões judaico cristãs, que são primordialmente centradas em um Deus masculino, onde a figura da divindade feminina foi excluída, ao passo que diversas outras religiões buscam a representatividade do feminino divino nos mostra a inversão do poder?

Como destacar o protagonismo e a mudança pessoal da mulher no parto é reducionista e ingênua?

Sim acho um absurdo a maneira como o parto é encaminhado. Desde o diagnostico até a saída do bebe ou sua retirada, as violências obstétricas, as cirurgias desnecessárias, os procedimentos invasivos …

Mas me espanta mesmo é o afastamento das mulheres da conexão com sua realidade feminina.

Não, isso não é afirmar ou aceitar a exclusão social e a submissão masculina. Quando falo de realidade feminina falo do poder de gerar e parir. Das condições e das transformações psíquicas, físicas, espirituais da mulher. Que é diferente do homem. Que tem questões próprias, que tem valor próprio, que tem interpretação própria.

Mas ainda temos muito que caminhar.

Falta consciência corporal, falta conhecimento sobre a subjetividade feminina, falta apoio nas redes das mulheres.

Mulheres que falam com mulheres e exercem um poder que objetifica, condena, regula, castra qualquer manifestação das mulheres. Por qualquer digo qualquer coisa que saia do padrão logico racional cientifico – que é também uma forma de dominação masculina da linguagem e do entendimento da vida.

O fato de mencionar instinto, sexto sentido, alma feminina e abordar um lado espiritual de um fenômeno especificamente da mulher, simplesmente traz a crítica racionalista de que estou operando dentro do sistema de opressão das mulheres.

Porque na luta do poder feminino, algumas afirmam em seus posicionamentos que é preciso abrir mão da subjetividade e do inconsciente feminino, que não há distinção entre homens e mulheres, e que afirmar a subjetividade é abrir espaço para a dominação masculina.

E enveredamos para o extremismo. Para a negação de tudo que nos alimenta, nos conecta com a natureza, nossa origem animal, nossa relação com os filhos, nossa constituição corporal, nossa sensibilidade e criatividade, nossa inteligência, nossas capacidades, nosso poder.

Ainda temos muito que caminhar.

De minha parte só me resta afirmar sim, o direito a exercer e buscar o lirismo, a intuição, a conexão com o sagrado feminino e o inconsciente feminino.

Sem que isso signifique aceitar a opressão e submissão masculina.

E ainda gostaria de afirmar que outras mulheres como Laura Gutman e Clarissa Pinkola estão aí contribuindo para a expansão de uma compreensão do inconsciente da mulher, das questões especificas da mulher.

E enquanto as próprias mulheres não tiverem acesso a esta compreensão, enquanto não reconhecerem e investigarem sua própria constituição, não haverá poder feminino.

 

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