Missão: maternidade

Meu companheiro deixou escapar que sente saudade de ter tempo pra ele, tempo de adulto, fazer coisas de adulto. A vida com bebê é cansativa, um mergulho intenso e profundo na infância e não sobra praticamente nenhum espaço para atividades adultas, sair, beber, assistir um filme ou qualquer coisa do tipo. As poucas horas depois que o bebê dorme e poderíamos investir em alguma atividade, estamos cansados demais para qualquer coisa, e logo precisamos dormir, pois em breve ela acordará de novo. É verdade que não há espaço para descanso e distrações, e que são todos os dias, sem feriado, fim de semana ou férias. Mas ainda assim fiquei um pouco chateada, será que ele não está curtindo a paternidade? Será que apesar da dedicação e presença (coisa rara nos dias de hoje) ele ainda gostaria de estar em outro lugar?

Depois refleti um pouco mais. Vejo diariamente relatos de mães exaustas, algumas infelizes e deprimidas. Vejo as nuances e profundidades do puerpério, baby blues, depressão pós parto, se estendendo pela vida do bebê e da mulher, as vezes por anos. Muitas mulheres se ressentem de alguma forma dessa mudança brusca e profunda que um bebê traz a vida de uma mãe.

Não é errado, nem feio nem egoísta desejar outras coisas. Ainda mais na sociedade paternalista e machista, onde se relega à mulher a maior parte da responsabilidade, e libera os machos. Também não quer dizer que não ama o filho. Apenas significa que o adulto é um ser complexo, que precisa de mais atividades do que “apenas” supervisionar um novo ser. A felicidade depende de tantos fatores não é mesmo? Alimentação, repouso, divertimento, segurança… Então quem sou eu para julgar o que outra pessoa sente, o que faz falta ou o que é necessário para que ela seja feliz?

Mergulhei em meus botões então. Será que eu tenho algo de errado? Eu não sinto nada. Não sinto falta do que eu era nem do que eu tinha. Não sinto falta das horas que me dedicava me embelezar, fazendo escova, maquiagem, depilação. Não sinto falta das horas que passava lendo, estudando, anotando, refletindo sobre assuntos diversos. Não sinto falta de contato com outros adultos, beber, conversar, sair, assistir peça de teatro, filme, dançar, madrugar, dormir até meio dia. E mesmo o trabalho, não sinto falta por mim, sinto necessidade de ter atividades produtivas para promover uma vida melhor para minha filha. Mas não uma “falta” que dê sentido a minha vida.

Gosto dessas coisas? Gosto, muito. Provavelmente voltarei a fazer algumas delas quando o tempo me permitir.

Mas desde que minha bebê nasceu não tenho tempo nem pra pensar. Mal consigo pentear os cabelos e escovar os dentes. Sentir saudade exige tempo para nostalgia. Só penso, ajo, estudo em função da criação da minha filha. Não consigo pensar em outra coisa. E mais: não consigo me interessar em outra coisa. Não há nada no mundo mais interessante do que criar um ser humano.

E apesar das noites mal dormidas, do cansaço eterno, do desinteresse em outras coisas da vida, nunca me senti tão conectada com minha alma, minha missão de vida. Sinto que estive me preparando para este momento há muito tempo. Não me levem a mal. Não estou dizendo que mulheres nasceram para ser mães, e que o chamado seja natural e instintivo. Nem que homens não podem ou não devem sentir isso. Estou dizendo que há algo de misterioso e grandioso que existe quando se reconhece o tamanho desta missão, o desejo de cumpri-la com o corpo, a alma e o coração.

Ter um filho é mais do que ser responsável, e exige mais do que se tornar maduro. Nos coloca em contato com a verdade das almas, o desejo de um destino que esteja coerente com a missão e anseio do próprio coração.

Sair, me divertir, me distrair não é prioridade, e não é minha vontade, sabe. Não sinto nisso alguma utilidade, ou algum “bem” que me faça tamanha diferença para sentir falta. Eu não sinto pena de mim mesma nem me ressinto por ter um bebê e não poder fazer certas coisas. Pelo contrário, sinto que tenho uma coisa muito importante, séria, divina para realizar, enquanto outros não tem tamanho compromisso. Me sinto muito importante, muito grandiosa ficando em casa.

Minha batatinha, a coisa mais importante da minha vida, deu um sentido, uma orientação, uma missão para mim. Que transcende o compromisso “com ela” ou com a “responsabilidade” de ser mãe. É algo maior do que as pessoas, maior do que eu, maior do que ela. É algo profundo e poderoso, e no entanto, sutil e etéreo. Está na conexão da mente-alma-espírito, e com o grande poder da Grande Alma, que nos une enquanto ser humanos, filhos descendentes de uma mesma origem, uma mesma mãe e um mesmo pai. E de dar continuidade a existência, em contribuir para um mundo melhor, formar um ser humano melhor. Dar a ela assistência para continuar existindo, alimento, aconchego, segurança, estrutura emocional. É como se eu tivesse dando isto de presente ao mundo. Um mundo tão triste, tão violentado, tão surrado. Necessitado de afeto, de segurança, de comprometimento.

Eu amo esta sensação. Estou ligada ao meu destino verdadeiro. E vou fazer tudo que for possível para realizar essa missão da melhor maneira possível. Mesmo que para isso eu deixe de trabalhar por um período; eu deixe de sair e encontrar pessoas; eu deixe de conhecer trabalhos e de fazer redes de contato; mesmo que para isso eu tenha que me defrontar com necessidades viciantes do dia a dia, com minha família, com meu marido, minha mãe. É um exercício de presença, de pensar e viver um dia de cada vez, e de mergulhar na existência em sua essência, as prioridades, as principais necessidades, e as distrações que nos impõe essa sociedade. E com o que desejamos para o mundo. Pensar a vida não se encerrando em mim mesma, mas como uma continuidade, um coletivo, algo que se estende, continua, e segue. É um alivio saber que não morrerei em meu corpo – algo de mim fica para depois.

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