Você é o que você come

Então minha filha entrou nos cinco meses e pouco e bateu aquela aflição sobre alimentação. Aos seis meses começa a introdução alimentar (IA) e seria necessário conhecer este universo.

Comecei a estudar nutrientes, alimentos, maneiras de preparo, receitinhas, métodos de alimentação (papinha, blw, bliss). E a entrar em profundos questionamentos.

Como posso desejar que minha filha se alimente de verduras, frutas, legumes se eu raramente vejo essas cores em meu próprio prato? Como proporcionar uma educação alimentar apropriada se como diariamente doces, pães, chocolates em abundância?

É preciso compreender que os filhos imitam o que veem, e não as idéias, os ideais, os pensamentos. Eles são abertos congnitivamente, grandes observadores, e absorvem tudo da realidade concreta – aquilo que veem ao seu redor, aquilo que fazem próximo a eles e com eles, aquilo que está no ambiente. E especialmente com amor, por amor.

Então, eu e meu companheiro tivemos longas conversas sobre nossa própria alimentação. Nossos hábitos, ou falta de, nossos vícios, nossos desejos e interesses.

E assim passei a frequentar feira, hortifrúti, quitandas. A comprar vegetais que há muito tempo tinham sumido de vista. Coisas que comi na infância na casa da vó, na casa da mãe, na casa das tias e que, por algum motivo se tornaram raros e ausentes quando passei a morar sozinha.

A praticidade, a pressa da vida urbana, aliada ao pouco tempo disponível, a preguiça, a facilidade de comprar tudo pronto faz com que acabemos privilegiando o carboidrato, os pré-prontos, os congelados, processados, ultraprocessados. Alimentos ricos em açúcar, em conservantes, estabilizantes e acidulantes. E pobres em nutrientes, cores, sabores.

Esse mergulho no hortifrúti foi essencial. Para refletir sobre mim mesma, o que estou sendo, como me vejo, como me alimento. Ver minhas unhas mais fortes, meu cabelo parar de cair, a pele do rosto mais bonita. Sim, bem clichê, ficando mais bela de dentro para fora.

E é um choque. O vício do açúcar, os momentos de abstinência (sim fui reduzindo açúcar e derivados de vaca, não tirei totalmente mas diminui bastante), que traz um certo nervosismo, euforia, ansiedade foi aos poucos dando lugar para a saciedade, para uma tranquilidade, um prazer em comer. Que se estende para o prazer de ir buscar, pesquisar alimentos e receitas, de frequentar a feira, de lavar, temperar, preparar cada um desses alimentos, até se transformar em uma saborosa refeição.

Dá um certo trabalho, e precisa de um pouco de força de vontade. Mas vale muito a pena.

Tenho sentido muito prazer nisso tudo. Fiz as pazes com a cozinha.

Acredito que por algum tempo a cozinha foi vista como espaço de opressão das mulheres, que ficavam confinadas ao reino do lar, e ao fogão. E ainda é naquelas famílias onde lugar de mulher é na cozinha, onde só as mulheres entram, fazem e organizam este espaço, onde macho só entra carregando sacola. E embora meu companheiro se interesse em aprender, se arrisque a fazer algumas coisas, obviamente que o grosso, a maior parte fica para mim. Sim, questionei se isso era mesmo uma vantagem, ou se eu estava retornando para o lugar da dona de casa – já basta ter um bebe, não estar trabalhando, ficar bastante restrita em casa.

Mas veja, a cozinha pode também ser o espaço de independência e liberdade, onde podemos aprender sobre nosso dia a dia, sobre a natureza, sobre a integração com o ambiente e sobre nossa saúde. Aliás é um lugar maravilhoso para se investir em saúde, em realizar experimentos, em ocupar mentes, mãos e afetos.

Há lindas filosofias orientais que oferecem uma visão que considero mais acertada sobre nós mesmos. E nestas maneiras de ver, o ser humano (especialmente o urbano ocidental) está muito infantilizado, muito dependente, e precisa se responsabilizar por si próprio. E essa responsabilidade de si começa em casa – limpando a própria sujeira, fazendo a própria comida. Não terceirizar este processo. Independente da condição financeira, há um certo ranço colonial de desejar ter funcionários para fazer isso. E há um ímpeto de auto cuidado e independência em se responsabilizar por seus espaço, sua alimentação. Porque o espaço da casa, e especialmente o espaço da comida gera e demanda muita energia. Para além dos alimentos e dos nutrientes, há a energia que desprendemos no preparo, o ingrediente secreto, o “amor” que é percebido quando nos alimentamos com uma comida saborosa. Fazer com cuidado, atenção, afeto é um diferencial em qualquer preparo. É um cuidado de si. E é uma doação de si.

E é uma sensação maravilhosa perceber-se em uma mudança interna, de dentro para fora, provocada pela maternidade e pela urgência de uma necessidade de minha filha. Como estou crescendo e aprendendo com a maternidade. Em paz. Sem raiva, sem culpa, sem stress. Ainda tenho muito para aprender, sei que vamos passar por diversas fases, mas só de proporcionar uma reflexão e uma transformação na alimentação da casa toda é maravilhoso.

Para adequar ainda mais este processo centrado na criança fomos orientados pela pediatra a procurar uma nutricionista. Isso me alegra tanto. Uma pediatra que não se arrisca a fazer receitas, que reconhece o valor de outro especialista e do trabalho em equipe, ao passo que a nutricionista em questão também está atualizada em sua área de domínio, conhece e compreende as necessidades do bebê, da família, e as novas pesquisas da área. Aí é de matar de amor uma mãe que “só” deseja o melhor para sua filha, sua família e para si mesma. Foi também uma ótima oportunidade de tirar dúvidas, e de ter a orientação necessária, pois apesar de ser um processo “simples”, muitos pequenos detalhes são bacanas de conhecer, como as manobras de desengasgo, os alimentos potencialmente alergênicos, a oferta gradativa, e os mitos, as coisas antigas, ultrapassadas. Me sinto confiante e feliz em começar este processo com a Tatá, pois ela está crescendo rápido e poder estar informada, empoderada, atenta às necessidades dela, bem orientada pelos profissionais, e mais do que tudo, em paz comigo mesma, sem culpas, sem neuras, com certeza vai ajudar a ela se desenvolver da maneira mais natural e saudável possível.

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Ainda sobre o parto

Me chamam de romântica por acreditar que o parto deveria ser um trabalho espiritual.

Falaram que meu texto não tem valor porque não é cientifico.

Me julgam de ingênua por defender uma imersão no processo de parto, por acreditar que há um mergulho que muda profundamente corpo e alma da mulher.

Me disseram que o que eu escrevi sobre parir é um desserviço porque idealiza e fetichiza o parto, realocando a mulher na condição de femea mamífera, enfeitando com gliter e menção a deusa estabelecendo uma nova forma de opressão as mulheres.

Em algum ponto que eu não entendi ainda disseram que eu fiz a distinção entre parto vaginal e cesária, e que ninguém é menos mãe por ter cesárea.

E ainda me chamaram de machista.

Logicamente tais sentenças mexeram muito comigo.

Eu, que acredito no direito das mulheres, na humanização do parto e da assistência, eu que defendo o protagonismo da mulher e da criança.

Eu que não julgo, busco não agredir, não criticar de maneira direta ou clara certas escolhas – que na verdade não tem nada de escolha, pois não há uma real consciência da implicação das consequências da mesma, vide mulheres que fazem cesárea eletiva porque são induzidas pelos médicos e sua conveniência e que não apresentam os riscos da cirurgia e os benefícios do processo natural – mas procuro aceitar, compreender que estão imersas em sistemas sociais opressores que muitas vezes nem tem clareza da existência e que ainda mencionam que fizeram cirurgia porque quiseram, e usam o bordão “meu corpo, minhas regras” como se estivessem fazendo algo fora da regra.

Fiquei intrigada.

Como a linguagem lírica pode ofender tanto? Se eu tivesse escrito um texto dissertativo, racionalista, racional talvez tivesse um pouco mais de receptividade, já que acredito nessas coisas que cito acima.

Por que o sagrado feminino é visto como opressão machista? Se, principalmente no Brasil, vivemos sob o domínio de religiões judaico cristãs, que são primordialmente centradas em um Deus masculino, onde a figura da divindade feminina foi excluída, ao passo que diversas outras religiões buscam a representatividade do feminino divino nos mostra a inversão do poder?

Como destacar o protagonismo e a mudança pessoal da mulher no parto é reducionista e ingênua?

Sim acho um absurdo a maneira como o parto é encaminhado. Desde o diagnostico até a saída do bebe ou sua retirada, as violências obstétricas, as cirurgias desnecessárias, os procedimentos invasivos …

Mas me espanta mesmo é o afastamento das mulheres da conexão com sua realidade feminina.

Não, isso não é afirmar ou aceitar a exclusão social e a submissão masculina. Quando falo de realidade feminina falo do poder de gerar e parir. Das condições e das transformações psíquicas, físicas, espirituais da mulher. Que é diferente do homem. Que tem questões próprias, que tem valor próprio, que tem interpretação própria.

Mas ainda temos muito que caminhar.

Falta consciência corporal, falta conhecimento sobre a subjetividade feminina, falta apoio nas redes das mulheres.

Mulheres que falam com mulheres e exercem um poder que objetifica, condena, regula, castra qualquer manifestação das mulheres. Por qualquer digo qualquer coisa que saia do padrão logico racional cientifico – que é também uma forma de dominação masculina da linguagem e do entendimento da vida.

O fato de mencionar instinto, sexto sentido, alma feminina e abordar um lado espiritual de um fenômeno especificamente da mulher, simplesmente traz a crítica racionalista de que estou operando dentro do sistema de opressão das mulheres.

Porque na luta do poder feminino, algumas afirmam em seus posicionamentos que é preciso abrir mão da subjetividade e do inconsciente feminino, que não há distinção entre homens e mulheres, e que afirmar a subjetividade é abrir espaço para a dominação masculina.

E enveredamos para o extremismo. Para a negação de tudo que nos alimenta, nos conecta com a natureza, nossa origem animal, nossa relação com os filhos, nossa constituição corporal, nossa sensibilidade e criatividade, nossa inteligência, nossas capacidades, nosso poder.

Ainda temos muito que caminhar.

De minha parte só me resta afirmar sim, o direito a exercer e buscar o lirismo, a intuição, a conexão com o sagrado feminino e o inconsciente feminino.

Sem que isso signifique aceitar a opressão e submissão masculina.

E ainda gostaria de afirmar que outras mulheres como Laura Gutman e Clarissa Pinkola estão aí contribuindo para a expansão de uma compreensão do inconsciente da mulher, das questões especificas da mulher.

E enquanto as próprias mulheres não tiverem acesso a esta compreensão, enquanto não reconhecerem e investigarem sua própria constituição, não haverá poder feminino.

 

Missão: maternidade

Meu companheiro deixou escapar que sente saudade de ter tempo pra ele, tempo de adulto, fazer coisas de adulto. A vida com bebê é cansativa, um mergulho intenso e profundo na infância e não sobra praticamente nenhum espaço para atividades adultas, sair, beber, assistir um filme ou qualquer coisa do tipo. As poucas horas depois que o bebê dorme e poderíamos investir em alguma atividade, estamos cansados demais para qualquer coisa, e logo precisamos dormir, pois em breve ela acordará de novo. É verdade que não há espaço para descanso e distrações, e que são todos os dias, sem feriado, fim de semana ou férias. Mas ainda assim fiquei um pouco chateada, será que ele não está curtindo a paternidade? Será que apesar da dedicação e presença (coisa rara nos dias de hoje) ele ainda gostaria de estar em outro lugar?

Depois refleti um pouco mais. Vejo diariamente relatos de mães exaustas, algumas infelizes e deprimidas. Vejo as nuances e profundidades do puerpério, baby blues, depressão pós parto, se estendendo pela vida do bebê e da mulher, as vezes por anos. Muitas mulheres se ressentem de alguma forma dessa mudança brusca e profunda que um bebê traz a vida de uma mãe.

Não é errado, nem feio nem egoísta desejar outras coisas. Ainda mais na sociedade paternalista e machista, onde se relega à mulher a maior parte da responsabilidade, e libera os machos. Também não quer dizer que não ama o filho. Apenas significa que o adulto é um ser complexo, que precisa de mais atividades do que “apenas” supervisionar um novo ser. A felicidade depende de tantos fatores não é mesmo? Alimentação, repouso, divertimento, segurança… Então quem sou eu para julgar o que outra pessoa sente, o que faz falta ou o que é necessário para que ela seja feliz?

Mergulhei em meus botões então. Será que eu tenho algo de errado? Eu não sinto nada. Não sinto falta do que eu era nem do que eu tinha. Não sinto falta das horas que me dedicava me embelezar, fazendo escova, maquiagem, depilação. Não sinto falta das horas que passava lendo, estudando, anotando, refletindo sobre assuntos diversos. Não sinto falta de contato com outros adultos, beber, conversar, sair, assistir peça de teatro, filme, dançar, madrugar, dormir até meio dia. E mesmo o trabalho, não sinto falta por mim, sinto necessidade de ter atividades produtivas para promover uma vida melhor para minha filha. Mas não uma “falta” que dê sentido a minha vida.

Gosto dessas coisas? Gosto, muito. Provavelmente voltarei a fazer algumas delas quando o tempo me permitir.

Mas desde que minha bebê nasceu não tenho tempo nem pra pensar. Mal consigo pentear os cabelos e escovar os dentes. Sentir saudade exige tempo para nostalgia. Só penso, ajo, estudo em função da criação da minha filha. Não consigo pensar em outra coisa. E mais: não consigo me interessar em outra coisa. Não há nada no mundo mais interessante do que criar um ser humano.

E apesar das noites mal dormidas, do cansaço eterno, do desinteresse em outras coisas da vida, nunca me senti tão conectada com minha alma, minha missão de vida. Sinto que estive me preparando para este momento há muito tempo. Não me levem a mal. Não estou dizendo que mulheres nasceram para ser mães, e que o chamado seja natural e instintivo. Nem que homens não podem ou não devem sentir isso. Estou dizendo que há algo de misterioso e grandioso que existe quando se reconhece o tamanho desta missão, o desejo de cumpri-la com o corpo, a alma e o coração.

Ter um filho é mais do que ser responsável, e exige mais do que se tornar maduro. Nos coloca em contato com a verdade das almas, o desejo de um destino que esteja coerente com a missão e anseio do próprio coração.

Sair, me divertir, me distrair não é prioridade, e não é minha vontade, sabe. Não sinto nisso alguma utilidade, ou algum “bem” que me faça tamanha diferença para sentir falta. Eu não sinto pena de mim mesma nem me ressinto por ter um bebê e não poder fazer certas coisas. Pelo contrário, sinto que tenho uma coisa muito importante, séria, divina para realizar, enquanto outros não tem tamanho compromisso. Me sinto muito importante, muito grandiosa ficando em casa.

Minha batatinha, a coisa mais importante da minha vida, deu um sentido, uma orientação, uma missão para mim. Que transcende o compromisso “com ela” ou com a “responsabilidade” de ser mãe. É algo maior do que as pessoas, maior do que eu, maior do que ela. É algo profundo e poderoso, e no entanto, sutil e etéreo. Está na conexão da mente-alma-espírito, e com o grande poder da Grande Alma, que nos une enquanto ser humanos, filhos descendentes de uma mesma origem, uma mesma mãe e um mesmo pai. E de dar continuidade a existência, em contribuir para um mundo melhor, formar um ser humano melhor. Dar a ela assistência para continuar existindo, alimento, aconchego, segurança, estrutura emocional. É como se eu tivesse dando isto de presente ao mundo. Um mundo tão triste, tão violentado, tão surrado. Necessitado de afeto, de segurança, de comprometimento.

Eu amo esta sensação. Estou ligada ao meu destino verdadeiro. E vou fazer tudo que for possível para realizar essa missão da melhor maneira possível. Mesmo que para isso eu deixe de trabalhar por um período; eu deixe de sair e encontrar pessoas; eu deixe de conhecer trabalhos e de fazer redes de contato; mesmo que para isso eu tenha que me defrontar com necessidades viciantes do dia a dia, com minha família, com meu marido, minha mãe. É um exercício de presença, de pensar e viver um dia de cada vez, e de mergulhar na existência em sua essência, as prioridades, as principais necessidades, e as distrações que nos impõe essa sociedade. E com o que desejamos para o mundo. Pensar a vida não se encerrando em mim mesma, mas como uma continuidade, um coletivo, algo que se estende, continua, e segue. É um alivio saber que não morrerei em meu corpo – algo de mim fica para depois.