O parto

O nascimento de um bebê. É o rompimento. A maior catarse que existe. Rompe-se terra e firmamento. Ficamos em suspenso: quem vem do céu? Alguém irá para lá? Suspense e suspensão do tempo-vida.

Confronta-se vida, morte, sentimento, pensamento, sexo. Tudo. Ao mesmo tempo. Compulsivo, convulsivo. Progressivo.

E a mulher passa por isso. Cada mulher parindo recria e revisita o big bang. A criação do universo, explosão, força, emoção.

E neste processo, ela mesma renasce. Morre, ao matar o que era antes, e agora não será mais possível na presença de um outro que é parte de si própria. E pari a si mesma uma outra, junto com seu duplo, seu broto, seu dedo, seu outro: seu filho.

Lindo! E cansativo. Exaustivo. Entorpecente. Mergulho na escuridão.

E dor. Muita dor. Uma dor absurda, uma dor obscura, pulsante, crescente, explosiva.

A sensação de partir-se ao meio. Corpo, alma, coração. Tudo.

Se há algo que me espantou no trabalho de parto é a dor. Por que tanta dor meu Deus? Por que tão difícil? Porque a vida há de ser tão dura? Como podemos desejar tranquilidade na vida se o ato de nascer é tão dolorido e difícil?

Quanto entendimento podemos extrair da experiência dessa dor? Entendimento da vida, de tudo que existe. Entendimento da paixão, do medo, do caos, da violência, da amplitude do universo, do tamanho ridículo do ser humano. Entendimento da amplitude e da insignificância. Majestosa e pueril. A DOR DA VIDA. Milagre. Amor.

Não me venham com medicamentos, sintéticos, higienização, assepsia. Analgésicos, bisturis, luvas e injeções. A esterilização da vida impede o contato com a realidade da vida. Isso nos afeta profundamente a alma! De todos nós! Uma humanidade que não quer se sujar. Um inconsciente coletivo inteiro fugindo da sombra. Isso só pode resultar em sofrimento, e doença. E pasmem: mais dor. A dor não revelada. A dor que se evita é a dor que mais dói. Porque você finge que ela não existe, e ela insiste em se fazer viva. Ela não permite ser ignorada. Mas você a ignora. E tarda mas não falha – na madrugada, no travesseiro, ou no silêncio do chuveiro ela pulsa. A dor ignorada pulsa diariamente.

O parto é sujo. Sujo de vida. Da mais visceral vida. Sujo de nossas entranhas, nossos medos, nossos fluídos. O parto é a pulsação orgânica da origem da vida. É nosso direito passar por isso. É nosso dever entrar em contato com isso. Cai a máscara, tira-se a maquiagem. O corpo nu, sem retoques, ao vivo, ele se basta. Só se chega no outro lado da margem serena se atravessarmos o rio. Pegar um atalho não nos garante tranquilidade. Vivemos atormentados por fantasmas do rio em que não entramos. A mulher que não pariu, a criança não parida, o pai que não assistiu – a humanidade inteira perdida.

Tanto mistério e tanto encantamento que provoca cientistas, filósofos e poetas. Ali. Exposto dentro. Dentro da carne viva de uma mulher que exausta berra, e com seu berro reproduz a onda primordial divina OM. O som primordial.

E é um absurdo o aprisionamento do nascimento em paredes brancas e esterilizadas. O parto é o trabalho mais espiritual e mais concreto que existe na face da vida da Terra. Era pra ser acompanhado somente por mulheres guia espirituais e que já tenham vivenciado tal rompimento. Nenhuma mulher sem filho deveria ser capaz de acompanhar um parto. Nenhum homem deveria ter tal habilitação. Estamos falando de como colocamos os seres humanos no planeta. E não de uma doença, e não de um caso raro ou exceção. Estamos falando de continuidade. Da história da nossa espécie. De prole. De parto, sangue, menstruação, ovulação, cólica, contração, puerpério, rompimento na alma. Qual médico estudou isso em sua complexidade?

Por que é fatal.

É uma passagem. Um túnel. Um caminho. Que ninguém sabe o que estará do outro lado.

Como não? Vem um bebê lindo, nasce uma mãe.

Também. Mas as camadas de vida que essa mãe atravessa, quase ninguém sabe dizer. Ninguém sequer arrisca enunciar essas dores.

Entramos em contato com nosso nascimento e vida, e com o mais comum em todas as vidas. A respiração, a pulsação, o instinto. Mulher-bicho. Mulher-loba. Mulher-universo.

Dentro da barriga e para fora dela, a recriação do mito da origem.

Morte a Adão e Eva. Morte ao big bang. Morte aos teóricos, teólogos, filósofos.

O segredo da origem da vida está guardado somente com as mulheres que parem.

Precisamos falar sobre isso. Homens, deem licença. Homens, espantem-se, admirem, repousem, respeitem. Aceitem o poder divino feminino colocado ali em uma mulher. Permitam que expurguem suas dores. Acompanhem, assistam mas não interfiram. São as mesmas dores da humanidade, dos homens e das mulheres, da mãe, do pai, do filho, da filha. Mas é a mulher que faz.

E da placenta. Porque fingimos que a placenta não existe? É ela a concretude de todo o trabalho, o resquício, o souvenir, a relíquia divina que nos permite curar e atravessar por isso. É ela, placenta o espirito santo materializado. O anjo que traz o filho. O sopro divino encarnado. Não pode ser descartado como uma caixa de remédio vazia. É preciso dar um encaminhamento para ela. Seja seu sepulcro, seja seu retorno, reciclado. Plantada, ingerida, carimbada. Isso vai facilitar a nova vida.

Ritual. A vida renasce e não permitem o ritual. Estamos carentes de rituais verdadeiros, pois os portais se abrem, e só pensamos em medidas cardíacas e assepsia. Não nos permitem nem acender velas para que se faça a luz.

E é isto que vai determinar o tamanho e o tempo da dor que essa mulher vai sentir, nas penumbras do puerpério.

Mulheres. Isso é urgente. Gestantes e pós-gestantes – precisamos nos unir. Orar por nossos filhos e filhas, e pelo nascimento dos que vem depois. Precisamos tomar as rédeas, aceitar o afloramento de nossos instintos e sexto sentido.

E olha que curioso. Só consegui produzir esse texto ao terceiro mês completo do nascimento de minha filha.

Precisamos falar sobre isso.

 

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