Dia das mulheres 


Ser mulher nos dias de hoje é perceber que a mulher veio primeiro, mas o homem que veio depois vale mais.

É perceber que não há respeito com as velhas, as anciãs, as matronas, avós. Mas há quando falamos de coronéis, doutores, senhores.

Nem há respeito com as crianças a quem chamam de “novinha”. Nem há respeito com as jovens, a quem chamam de piranha, puta, gostosa, vadia. Nem há respeito com as adultas, a quem chamam de vaca, feia, gorda, louca, velha. Não há idade em que se respeite uma mulher.

É perceber que se você gera uma pessoa dentro de você, se descobre que o ritmo é lento, é calmo e pleno de transformações, que precisa de calma e coragem… e percebe melhor as aberraçoes de pressa, da vigilância, da violência, da ordem, da repetição.

Ser mulher é ser analisada como aquela que tem inveja do penis, quando na realidade os machos é que tem inveja da gravidez e do peito.

Quando se é mulher você sabe que todos são gerados em um ventre, alimentados em um peito, e aliviados em uma buceta, mas ainda assim tratam seu corpo como um mal profano, não como o templo sagrado que é.

Ser mulher é defender o parto natural – no tempo que demorar, sem intervenções, medicações, cirurgias – e ser chamada de louca, hippie, radical, comparada a uma índia sem civilização e perceber que se permanecermos em silêncio e respeitando as regras, vai chegar um dia em que mulheres não vão mais saber parir, e todos terão seus nascimentos roubados, violentamente arrancados do útero. 

Quando se busca o sagrado feminino, se percebe que os egos, as hierarquias, as propriedades são todas fálicas e patriarcais. A calma, a fartura, a generosidade, o acolhimento são elementos do feminino. Escassos porque vigiados, fortes porque sustentam a vida.

O mais irônico em tudo é que os próprios machos são vítimas e algozes, eles mesmos se tornam pressionados e frustrados pela ordem que estabelecem e cumprem e defendem. Se sentem sozinhos, se vangloriam de falsas virtudes e sofrem, em suas almas a carga feminina negada.

 É tudo invertido, doloroso e brabo, mas pasmem: dentro de cada mulher repousa a serenidade da vida. 

Para mudar, basta o silêncio e ouvi-la.

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