Meu corpo não me pertence mais

O meu corpo não me pertence mais. Ele é um ninho. Uma incubadora. Um berço, uma cama macia protetora para minha filha.

Vou crescendo, te envolvendo, me preparando, te acalmando. Me transformo, me informo, escuto e estudo, intuição e opinião vou formando, me tornando aquilo que serei a partir de você.E só eu sei como dói. Esperar, guardar, proteger, resguardar, aguardar. dsc_0207

E crio ao redor de você um escudo protetor do seu tempo, seu ritmo, sua história, sua vida.

E só eu sei como é difícil, minha filha, nesse comecinho da sua vida cercar nosso ninho da intervenção. Aqueles que deveriam nos proteger, nos apoiar, nos dar força e confiança nos tiram o tapete, geram dúvidas, arrependimentos, sofrimentos.

Será que imaginam que querem mais do que eu? Ou que você?

Será que julgam saber mais do meu corpo e do seu?

Desnecessários, dolorosos, desconectados.

A medicalização da vida, da saúde, nos impõe regras e comportamentos que nos roubam a autoridade sobre nossos corpos. Médicos criam medidas parâmetros protocolos que nos interrompem, nos expõe, nos invade, nos machuca. Família e amigos geram uma onda de expectativas ansiosas, comentários iludidos, desejos macabros, comportamentos condicionados.

E eu sigo aqui a única escolha que realmente fiz: respeitar você, eu, meu corpo, seu corpo, meu tempo, seu tempo.

E só em fazer isso já é resistência já é força desgaste, guerra.

Contra aqueles que massacram e mutilam nossos corpos; contra aquilo que se estabelece como normal padrão comum. Contra o que ninguém questiona ninguém pensa a respeito. Contra a máquina, a velocidade e o relógio. Contra protocolos, medidas simétricas, contra o “é assim” tentando mostrar que o coerente seria “comigo foi assim”.

Eu sigo o tempo natural das coisas. Que não é o “meu” tempo. É o tempo outro, o tempo da essência, da vida, da natureza.

Meu corpo não é o “meu”. É do mundo, é da vida, é do ninho.

E quem disse que não dói? Não ser mais eu? Abrir mão do controle, da fórmula, do raso, do pronto? Sofro. Com pesar, dificuldade, quem disse que é fácil?  Não é. Carrego meu fardo, mas apenas o meu. Resistir é preciso.

Prefiro me entregar na mão da deusa que dorme em meu ventre do que na mão dos egos que despudoradamente nos roubam a beleza.

Com um único objetivo:

Gerar um ser humano mais dócil, mais maduro, respeitado, escutado e que pode amar, respeitar, escutar.

Em tempos de guerra, a resistência pacífica é a maior transformação.

Amor em tempos de guerra.

Me frustro, lógico. Até mesmo dentro de mim existem expectativas, desejos. Eu crio ou deixo que entrem não sei. Como quero segurar você meu rei leão e mostrar pra selva toda. E ainda não posso.

Ainda aprendendo a viver um dia de cada vez. E você me lembra cada dia o que é estar presente.

Não ter controle sobre nada. Nem sobre mim, sobre o que ainda resta de mim. Sou outra coisa hoje.

Alguma coisa entre. Entre o que fui e o que serei. Pronta pra entrar em ebulição. Uma pluma no chão prestes a levantar vôo. Mas o vento não bate. Quando será? Só você sabe, minha deusa. Eu sou uma serva do seu bel querer.

Enquanto os planetas não se alinham, o segundo sol não chega entôo meu mantra, para me consolar…

Eu aceito, eu quero, eu posso, e estou preparada para isso.

Eu aceito, eu quero, eu posso, e estou preparada para isso.

Eu aceito, eu quero, eu posso. Estou preparada para isso.

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FINAL DE GESTAÇÃO

 

dsc_0024Tempo de gestar. Tempo de esperar. Tempo, tempo, sempre tempo.

Nada acontece, enquanto tudo acontece! Olhos, boca, intestino e pulmões se formam. E eu? Aqui, perdida entre o tempo e o espaço, entre querer e fazer, entre poder e não poder.

Angustia, ansiedade. A vida nunca mais será a mesma. Ou a vida vai voltar ao normal? Mal consigo andar até o banheiro. E preciso tanto, tantas vezes!

Sofrimento? Peso. Calor. Falta de ar. Queda de pressão. Desconforto. Dores no quadril, na coluna, cólicas, contrações aleatórias.

Eu me transformo. Sem o meu próprio consentimento. Meu corpo faz tudo sozinho, no automático, é lindo, é chato, é dolorido, é milagroso.

Quero me livrar. Quero mudar. Mutar. Vamos juntas, amiguinha, para outra vida?

O que esperar? Dores? Cansaço? Preocupaçoes? Amor. Muito amor mais amor tanto amor de explodir (literalmente) de amor.

Fúria. Força. Natureza, aqui estou, sua imagem e semelhança. Big bang em escala poeira cósmica, Fertilidade e gratidão divina em porções fracionadas de formiga. Comprometida até as vísceras.

EU, minha antiga eu, minha nova eu, e minha mini eu, todas nós aqui, discutindo, brigando, se amando, convivendo. Compartilhando comida, água, cama, pensamento, sentimento. Chute no estômago, cabeçadas na pelve. Cotovelada no fígado, pior coisa que existe.

Estou sofrendo. Estou em paz. Estou na lua. Estou no chão. Estou em todos os lugares. Onipresença. Divina?

Dentro de mim repousa, ansiosa e tranquilamente, uma outra. Que neste momento ainda sou eu.

Sabia que pode chegar a dez meses?