Das crises da gravidez e unicórnios 


Gestar é um estado muito especial, pra não dizer estranho. Dizem que é lindo, romantizam, admiram… a mulher se torna um ente respeitado e venerado, abrem os caminhos – e os assentos para elas, com todo respeito (quando há algum)… mas ninguém fala das dificuldades, dos surtos, das crises, dos inconvenientes…Estar grávida é abrir um parêntese na sua vida. Eu sou …. (nome, profissão, hobby, lazer) mas agora estou grávida. E talvez não consiga responder adequadamente quando solicitada por essa razão. Primeiro golpe na vida da mulher – não conseguir agir, responder, fazer coisas que anteriormente eram simples, como se concentrar no trabalho, ir até o mercado e trazer o que deseja, ou simplesmente limpar a casa.

Por um lado, uma medicina arbitrária, autoritária, alopática, cheia de ameaças, fórmulas prontas e procedimentos invasivos, violante e violentos. Uma medicina intervencionista, desumanizada e que se acha em poder superior a própria mãe em relação ao trato e saúde do bebê. Eu realmente queria entender a mente de uma pessoa que opta pela profissão de obstetra e decide que não faz parto, só cesárea. E todos os procedimentos que não são baseados em evidência científica, e sim em cultura e repetição dessa medicina doente. 

Não me levem a mal, sou muito a favor dos avanços científicos e da medicina moderna. Só que a difusão de técnicas e cirurgias simplesmente por conveniência, para acelerar o tempo do atendimento, ou para ganhar mais dinheiro é um absurdo. É urgente uma formação mais humanizada para os agentes de saúde, especialmente os médicos. 

De outro lado, uma comunidade de pessoas ( amigos, familiares, conhecidos) ansiosas, às vezes beirando a histeria para saber o sexo, o nome, o hospital, a data… uma pressa, uma agitação que é o oposto do que a gestante precisa… afinal gerar requisita tempo, paciência, doação…

Sem falar dos palpites… conselhos não pedidos, experiências infelizes, reflexos da sociedade doente. Todo mundo meio que se sente no dever ou na condição de aconselhar dizendo as maiores barbaridades sem nem perguntar o que você está pensando sobre tal assunto ou como está se preparando. Reconheço a boa intenção em muitos, mas me dói a arbitrariedade e a banalidade de conselhos que ignora uma série de questões que hoje em dia estamos debatendo se realmente são saudáveis ou fazem bem para o bebê – só pra citar alguns exemplos: aleitamento materno exclusivo, dormir no berço, uso de chupetas e mamadeiras, fraldas descartáveis ou de pano, introdução alimentar, alimentos industrializados… reflexos de uma sociedade de consumo, pós moderna e caótica como a nossa.

E no meio disso tudo, um corpo, que se transforma a cada dia, mudando tudo na rotina da mulher. Desde o banho, até as roupas, passando pelos hábitos diários, interesses e auto estima.

Em nenhum momento eu me senti bonita. Me sinto estranha, inadequada, desengonçada. Inchada, pés largos, peitos e barriga imensos. Muita acne e alergias de contato, cabelo oleoso (a vida toda tive cabelo seco), postura horrorosa, coluna que puxa ora na lordose, ora na cifose… ombros caídos, braços largos, sono e cansaço absurdo… em oposição a dificuldades de dormir, palpitações, falta de ar, fome exagerada, enjoos… e crises. Vontade de chorar, tempestades volúveis que surgem do nada. Queria me fechar no meu canto e solucionar os problemas com uma varinha de condão.

Nas crises mergulho em sentimentos variados que vão desde eu não consigo mais varrer o chão até coisas profundas de auto estima, maturidade, crescimento pessoal.

Não tem mais espaço pra infantilidades. É tempo de crescer, outra criança toma a vez. Tudo que foi ficando pra trás volta de maneira assombrosa. Sentimentos reprimidos, decisões adiadas, pequenos problemas mal resolvidos.

E ali, no auge da crise, uma pessoa te olha. Por dentro. Tem uma pessoa te vendo, e vendo tudo, acompanhando teus pensamentos, sentimentos, decisões. Talvez ela não compreenda tudo, mas com certeza acompanha… como um filme japonês sem legenda, ou um cachorro que escuta a conversa do dono. Não tem capacidade de compreender a linguagem, mas a comunicação se dá, isso é fato.

Duro encarar a humanidade de nossos processos, os limites, as falhas, as sombras. E ainda ter a certeza de que é justamente essa parte que vai refletir na pessoinha, aquilo que você ainda não digeriu, esconde debaixo do tapete ou no fundo do esquecimento da sua memória.

É preciso muita calma e coragem para se tornar mãe. Calma para não surtar a cada minuto. E coragem para encarar a si própria e a uma sociedade inteira mal resolvida… porque o ser humaninho que vem não tem culpa, não tem moral nem julgamentos… isso tudo fomos nós que criamos.

Meu marido teve uma conversa muito franca comigo e disse que pra ele as grávidas são como unicórnios. Não tem muita explicação, apenas deveriam ser deixadas a uma vontade… receber uma licença poética e fazer só o que quiserem e os outros que aceitem , com respeito. Porque não dá mesmo pra entender a não ser que se passe pela situação.

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