Final de ano

img_2609 Dá pra comemorar um ano ato demoníaco quanto 2016? Tantas dificuldades coletivas, retrocessos políticos, apertos econômicos. Mas para mim foi ano de tantas realizações pessoais que quase fico tímida por ter tido um ano tão bom num cenário social tão desastroso.

Minha mãe foi aprovada para estudar em Chicago, tive a oportunidade de conhecer essa cidade incrível em dois momentos diferentes: inverno e verão. Sempre acho que sair do país nos leva para dentro do nosso, aquilo que nos é essencial e nos permite ser o que somos, e nos dá saudade e também orgulho. Se reconhecer brasileira entre estrangeiros é um grande aprendizado, e fazia tempo que eu não vivia tão intensamente este momento.

Consegui realizar uma grande obra artística, ao lado de meus parceiros de trabalho e criação, o Grutta Teatro, finalizamos e estreamos a peça mais acabada artisticamente e mais próxima daquilo que desejamos produzir como arte. Um trabalho artesanal, construído tijolinho por tijolinho, com nossas próprias mãos. Nós dirigimos, produzimos, preparamos, encenamos, atuamos. Com qualidade. E não porque somos talentosos ou porque somos super, mas porque nos dedicamos, trabalhamos mais de um ano no processo, investimos dinheiro, tempo, amor para que este sonho se realizasse. E foi maravilhoso. Nunca estive tão orgulhosa do que eu mesma fiz, e nunca me senti tão bem acompanhada. Acho que na vida existem duas dificuldades: primeiro descobrir o que você quer, para o que você serve, sua paixão, sua missão. A segunda é encontrar os parceiros certos para realizar a jornada. E este trabalho, Cruzadas, construído a muitas mãos, reuniu a minha equipe dos sonhos, e conseguimos de fato um trabalho de construção coletiva, compartilhada. Um grande esforço individual de cada um dos envolvidos, e também um exercício de afeto, de aceitação, ceder, propor, não deixar a peteca cair, manter firme. Foi lindo.

Consegui concluir a minha segunda graduação, em Artes Cênicas, um grande desafio neste ano, pois conciliar os trabalhos por fora, e a gravidez, além de um certo retrocesso no percurso pessoal, às duras penas, conquistei meu diploma superior na área em que atuo. Depois de uma certa idade é muito difícil se submeter a processos escolares, abdicar de todas as noites, de muito tempo (precioso na vida adulta) para estar simplesmente sentado ou recebendo informações enlatadas e convivendo conflitos micareteiros – fora de época. A média dos colegas tem 20-25 anos e sou dez anos mais velha. Eles são uns amores, me tratam muito bem, e tento ser cordial e companheira, mas o choque das gerações é inevitável. O que eles desejam, os conflitos que vivem, as aspirações… tudo muito distante da minha identidade, e da minha realidade. Foi um desafio mesmo, pois evitei conflitos, mas os emaranhados sempre aparecem, e lá estou eu revisitando lugares de mim mesma já superados, resolvidos pela terapia ou esquecidos pelo tempo. Esquecidos?! Estar em contato com o novo, tendo idade (e capacidade, diga-se de passagem) para estar no lugar do professor ao invés de aluna, gera um sentimento difícil, mas persuadi, justamente porque me deixou mais forte, sabendo que realmente eu sei em qual lugar eu devo estar. Estou em busca de um lugar ao sol, e a trilha está mais iluminada agora.

Construí novas parcerias, e novos desejos de trabalho emergem desejando realizar. Um projeto para trabalhar o feminino, o cuidado, o terapêutico, de forma leve e profunda, temas e propostas a tantos anos encubadas dentro de mim e que levei tantos anos para amadurecer uma proposta. Estou feliz com a possibilidade deste projeto florescer uma nova jornada que deve dar muitos frutos em um futuro breve.img_2605

E por fim, a maior surpresa de todas, engravidei. E no engravidar, me revirando as vísceras por dentro, me transformo, amadurecendo e descobrindo muito de mim mesma, e do mundo, das pessoas que compartilham o mundo conosco. Me descobri mais atenta, mais paciente, mais ouvinte. Vejo as pessoas pela rua, pela vida, cruzo com elas, e percebo como estamos apressados, distraídos. Caminhamos entre as pessoas e não as percebemos – e talvez o mais grave, não percebemos a nós mesmas. Se tornar mãe, gerar um ser humaninho neste mundo de caos é mesmo um divisor de águas. Atravessar a ponte, e estar do outro lado, ajudando, acolhendo, orientando outros a passar.

Eu sei parece contraditório, talvez até egóico, diante de tantas dificuldades mundanas, eu sendo tao feliz agora, mas 2016 foi um ano tão revolucionário que vai ficar marcado em meu coração.

 

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