Fechando ciclos

flor

O blog está esquecido há quase um ano. Mas ele vive dentro de mim, nos meus pensamentos, desejos, planos que faço e não realizo. E aqui está, resistência, resiliência. Tentando, sem deixar de tentar.

Um dos motivos de minha ausência é que andei ocupada. Passei um ano terminando uma graduação, um passo atrás que tive que dar para crescer um pouco mais logo a frente. E frequentei uma escola privilegiada, que, apesar de ser uma escola de artes cênicas, é um espaço reservado para certos estrelismos, talentos inconscientes, incubadora de famosos, e ali me vi mergulhada em ansiedades, desejos e sensações já visitadas, de ansiedades, medos, rejeições…

O encontro com a vida cotidiana, a sociedade e suas mazelas, as dificuldades, os antagonismos… me questionei, me questiono muito em como enfrentar os estereótipos, os padrões sociais de comportamento e admiração, o machismo diário de cada dia…. como não promover a violência, mas ao mesmo tempo ser violado nas singularidades, na aceitação, no pertencimento.

Tive experiências bem desagradáveis, de encontro com egos, com pessoas cujo pensamento se opõe ao meu. E sofro, secretamente, eu choro, pela dor do mundo, pelo sofrimento da humanidade. Sei que cada pessoa tem seu valor, e que não existe “verdade absoluta” nenhuma, nem mesmo o meu ponto de vista é o lado certo da situação. Não há certo ou errado, há conflito, há pessoas buscando seu melhor, impondo suas verdades ou buscando se aproximar ao máximo delas. Mas estar em um espaço que não trabalha as desconstruções, o aceitamento, a inclusão, como solucionar os mal entendidos, os desafetos, os desentendimentos?

Ali muitos querem aparecer, querem seu momento de fama, têm suas expectativas e opiniões sobre o que deve ser feito para que tais situações aconteçam. Pequenas regras sociais, aquele mapa superficial que se encontra em qualquer revista de cinco coisas que não podem faltar, limites tão limitadores dos seres, da expressão, do estar. Além da diferença de idade (sou 10 ou 15 anos mais velha do que a média), diferença de cultura, de ideais. Eles, tão novos, tão imaturos, e tão egóicos. Espaço sem companheirismo, sem afeto artístico.

Houve determinado momento em que, em busca de aproximação, permiti que limites meus fossem ultrapassados. Processos doloridos, escolhas mal feitas, permissões desatentas, que abrem espaço para aquilo que você não busca, não valoriza, e principalmente não compactua. E na surpresa, no choque, me calo, e meu silencio compactua exatamente com o que não quero, não acredito, não valorizo. Machismos, estrelismos, egocentrismos. Neste momento adoeci, no meu processo de recolher meus sentimentos, de não expor minhas opiniões, de não enfrentar aquilo que eu desprezo, recolho para dentro ao invés de gritar aos quatro cantos, de expor e brigar, bater no peito, eu erradamente introjeto, saio ressentida, magoada. Uma pessoa que eu imaginava amiga, que convidei para minha casa, para meu grupo mais precioso de parcerias, esta pessoa dava sua última esnobada, me tratava como inimiga, ofuscadora de sua luz. Na minha  doença, aprendi comigo mesma a não permitir que isso aconteça, não me omitir a tal ponto de me machucar. E não criar expectativas tão altas sobre as pessoas. Eu já sabia disso, dos tempos do colégio, colega de turma não é amizade, conviver um ano no mesmo espaço não significa nada. Mas as vezes a gente cai no erro, imagina que pode, que dá, e o golpe é forte, dolorido.

Ainda bem que não há dor que não se cure, não há doença sem cura. Os campos energéticos se abrem para expor sua alma, e aquilo que se materializa através de uma amigdalite, de uma inflamação, uma alergia, são pontos energéticos buscando sua desobstrução. Meditei, refleti, expurguei o mal que havia em mim, e aceitei (essa a parte mais difícil e mais importante) que eles são assim.

Não existe afeto entre eles? Existe, como em qualquer lugar, as pessoas se aproximam por afinidade, por momento em que se apoiaram e se agradam. Mas não aquele afeto pela arte, aquele afeto promovido pelo processo, por viver junto, atravessar junto determinadas experiências. Na verdade os processos são bem abandonados, como todo teatro tradicional, focado em texto, encenação, em uma visão bem limitadora da arte e do teatro.

E como tudo na vida, depois da tempestade, vem a bonança…. Quando eu já estava rancorosa, dentro das minhas dificuldades, daquilo que eu buscava compreender, aprender, melhorar, encontrei amizades, aceitação, afeto. Quando eu já me perdia em minha arrogância, me alheiando a tudo que acontecia, me escondendo pelos cantos para viver minha outra realidade através de celular e internet, algumas boas almas me viam enquanto ser humano, gravido, medroso, acuado.

E eis que então aprendo mais do que espero. Mesmo em campos inférteis, em lugares onde imaginamos inocuidade, frieza, ainda há amor, ainda há amizade, ainda há humanos. Ainda bem. Lutemos.

Gratidão.

 

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