Apresentação

A minha experiência me impulsionou para uma trajetória sinuosa ao redor de diversas áreas de interesse. Geminiana, muito curiosa, desde cedo gostava muito de estudar e investigar coisas novas que apareciam à minha frente, desde a vida das formigas, até a distinção de estrelas e constelações. A ascendência em touro assegurou que eu fosse determinada, obstinada, mesmo que os caminhos fizessem curvas e com mudanças de percurso, não desistiria antes de alcançar aquilo que me arrepia, emociona, me descontrola e me deslumbra.

Jovem, absolutamente todas as matérias escolares me interessavam. Adorava literatura com a mesma intensidade que matemática, e tive profunda dificuldade em escolher uma carreira vocacional para seguir. Sempre tinha a sensação que escolher um trajeto me deixava órfã de todas as outras opções que eram negadas a partir de uma única escolha. A medida em que me aprofundava em determinados conhecimentos, sentia que meu universo não estava completo, e acabei me dedicando em sempre preencher as lacunas que faltavam. Fiz dança por um tempo considerável, mas tinha uma opinião e um julgamento sobre meu próprio corpo que me fez desistir de minha aptidão. Passei pela faculdade de Letras, e embora me deliciasse com leituras e discussões, não achava aquele universo desafiador o suficiente para minhas indagações. Eu era jovem e portanto arrogante, queria compreender o mundo, as diferenças, queria encontrar o sentido da vida, talvez vida em outros planetas, ou quem sabe uma grande descoberta que afetaria o trajeto da humanidade?

Gostava tanto de história que me dediquei ao estudo da biologia, simplesmente porque acreditava que a história começava antes dos seres humanos existirem. Considerava o ser humano muito ensimesmado, e pensei que o conhecimento a respeito de outras formas de vida e a interligação entre elas seria uma formação interessante. Optei por um curso que considerei mais generalista, ciências biológicas, que me permitiria estudar aspectos da física, da matemática, da química, e também algo relacionado à vida e às relações. Desejava simplesmente investigar a vida.

Na faculdade, apesar de amar as novidades, me espantei com a burocracia e o ensino tradicional, arcaico, pautado na memorização e em poucas atividades criativas, ao mesmo tempo que me deslumbrava com o pensamento científico e as investigações que tomei parte. A formação em ciências é exageradamente impessoal, e negar a minha pessoa, meu alongado corpo de dançarina, meu estado físico-emocional para completar uma carga horária absurda era uma das minhas maiores reclamações. E mesmo estando encaminhada na formação em ciências, sentia muita falta das áreas humanas, leituras e questões críticas, e acabei investindo na licenciatura, passando por momentos saborosos de compreensão a respeito da sociedade, suas mazelas e conquistas, e também a respeito do maior poder que o ser humano pode ter: conhecimento, e o processo ensino- aprendizagem.

Na formatura me via ainda despreparada, pois não vi na formação as questões contemporâneas da vida. Emendei um mestrado que trouxe para a cabeceira da minha cama filósofos incríveis, assim como os maravilhosos estudos culturais, que investigavam de perto a vida contemporânea em seus aspectos mais cotidianos: consumo, informática, vida virtual, e também os estudos de gênero, sexualidade, etnia, juventude. Me sentia conectada a todos eles, como se pudesse compreender melhor o mundo aconselhada por Foucault e com base em várias leituras de Bauman.

Mas durante o mestrado, me rebelei: sentia que quanto mais perto eu estava das questões que queria tocar, como gênero, sexualidade, juventude, mais soava hipócrita e banal os discursos. Via muitos acadêmicos de cadeira discursar sobre conceitos esquerdistas, de emancipação e ações afirmativas em relação à mulher, ao negro, aos homossexuais, mas com atitudes completamente opostas, recheados de machismos, sexismos, racismo e homofobia. Com medo do que estava me tornando, abandonei a carreira acadêmica brilhante que tinha pela frente e fui investigar o mundo real.

Me tornei professora de escola pública, e mesmo tendo investido em tanto estudo, não soube o que fazer diante de tantas dificuldades. Os anos de dedicação e estudo não me davam nenhum suporte para lidar com as crenças, culturas, violências e rebeldias da vida escolar. Imaginei que me faltava tato, arte, carinho. Ingressei no curso de artes cênicas com a esperança de melhorar minhas aulas e meu trato com os alunos, e fui fisgada para o fabuloso universo artístico.

A arte revolucionou minha maneira de estar no mundo. Tudo que eu havia construído ruiu: casamento, profissão, casa e futuro. Abandonei a carreira, passando a me dedicar inteiramente ao ofício artístico. Descobri o treinamento de atores e vivi uma sensação nostálgica de bem estar dentro de mim mesma. Estava (re)descobrindo o universo da minha infância, da verdadeira Maíra. A meditação e a terapia também me ajudaram muito na época desta transformação.

A maior dificuldade da vida, pode-se dizer que na verdade são duas: encontrar aquilo que realmente mexe com suas entranhas, e encontrar os verdadeiros parceiros da sua jornada. (E o maior desafio talvez seja abandonar aquilo que não é verdadeiro, tanto parceiros que seguem caminhos diferentes, como escolhas e caminhos que não condizem com o que se sente, mesmo já tendo caminhado ao lado deles, ou em direção de coisas que não fazem sentido. Muita força, muita coragem para abdicar do que já é estável em prol de ‘apenas’ um instinto, uma sensação de mal estar, incompletude e tristeza e também uma intuição de que a vida pode ser mais do que isto.). Com dificuldade, encontrei algumas pessoas que também viam sentido em uma vida de pesquisa corporal, e que mesmo sendo artistas, não vislumbravam apenas uma vida de fama e aplausos, e fundei um grupo de teatro cujo objetivo não era produzir trabalhos simplesmente, mas reunir investigadores da arte do ator, o GRUTTA TEATRO.

Por estar em um lugar tão apropriado, decidi retomar o caminho da pesquisa e da academia, investindo em pesquisa e formação em áreas do corpo, da arte, e (porque não?) da educação. Agora, mais segura da necessária relação entre teoria-prática, e também mais consciente da distância entre vida real e elocubrações racionais, estive envolvida com grupos de estudos e formações de artes corporais, como Laban, Feldenkrais, Angel Vianna, terapias, Constelação Familiar, meditação e também danças e artes marciais. Cada um desses grupos e conhecimentos me deram uma pecinha a mais para completar o mosaico de conhecimentos que hoje reconheço ter a respeito da vivência corporal, que tendo passado pelo meu próprio corpo, agora posso compartilhar com outros corpos.

A quantidade de mágoas e culpas que carregamos em nossas simples vidas é exagerada. Livrar-me das máscaras e dos ressentimentos me tornou uma pessoa melhor. Hoje acredito na razão e também na emoção, mas todos centrados em um único lugar: o corpo. Este lugar que habitamos, nossa primeira casa no mundo, que tão pouco dedicamos a conhecer, e que tão facilmente abandonamos é o único e verdadeiro elo com o mundo, comigo mesma, e com os outros. Sem corpo não há amor, não há descoberta, não há movimento. E tendo nascido mulher, que lugar mais belo, mais deslumbrante e também mais culpado, desconhecido e julgado para investir.

Investigá-lo é também abrir-se para o conhecimento científico. Mas com a coragem de estar do lado de dentro, nunca afastado ou impessoalmente olhando de fora. É também abdicar de pensamentos prosaicos e moralistas a respeito do que é o corpo. Defrontar-se com dogmas religiosos, e também com moralismos sociais, com todas as nossas crenças do que é adequado, inadequado, belo, feio, apropriado, estranho. É quando nos deparamos com as heranças, hereditárias, seculares, da nossa linhagem, nosso povo, nossa família, nossas raízes. Saber fazer a colheita, separar o joio do trigo e ficar apenas com o que é seu, é uma grande viagem que tem um único objetivo: felicidade  encarnada, no corpo, imediatamente, verdadeiramente.

Agora, já mais segura do que falta e de quais questões devo afrontar, me sinto mais forte para ajudar outras pessoas a descobrirem seu lugar no corpo feminino e na sociedade em que nos encontramos. Vejo esta pequena caverna feminina como uma saleta do GRUTTA TEATRO, com questões mais específicas a tratar. Aqui me permitirei falar de modo abrangente e direto tudo que considero interessante, confiável e pertinente ao universo feminino, desde saúde, corpo, estética, até leituras feministas, depoimentos e psicanálise e com especial enfoque nas metodologias corporais. Numa tentativa de organizar o meu conhecimento para o mundo e ajudar a outras mulheres a encontrarem a felicidade de ter seu corpo como residência. Um corpo feminino, com tudo que é de direito, com tudo que lhe foi negado, e com tudo que tem de melhor.

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