Você é o que você come

Então minha filha entrou nos cinco meses e pouco e bateu aquela aflição sobre alimentação. Aos seis meses começa a introdução alimentar (IA) e seria necessário conhecer este universo.

Comecei a estudar nutrientes, alimentos, maneiras de preparo, receitinhas, métodos de alimentação (papinha, blw, bliss). E a entrar em profundos questionamentos.

Como posso desejar que minha filha se alimente de verduras, frutas, legumes se eu raramente vejo essas cores em meu próprio prato? Como proporcionar uma educação alimentar apropriada se como diariamente doces, pães, chocolates em abundância?

É preciso compreender que os filhos imitam o que veem, e não as idéias, os ideais, os pensamentos. Eles são abertos congnitivamente, grandes observadores, e absorvem tudo da realidade concreta – aquilo que veem ao seu redor, aquilo que fazem próximo a eles e com eles, aquilo que está no ambiente. E especialmente com amor, por amor.

Então, eu e meu companheiro tivemos longas conversas sobre nossa própria alimentação. Nossos hábitos, ou falta de, nossos vícios, nossos desejos e interesses.

E assim passei a frequentar feira, hortifrúti, quitandas. A comprar vegetais que há muito tempo tinham sumido de vista. Coisas que comi na infância na casa da vó, na casa da mãe, na casa das tias e que, por algum motivo se tornaram raros e ausentes quando passei a morar sozinha.

A praticidade, a pressa da vida urbana, aliada ao pouco tempo disponível, a preguiça, a facilidade de comprar tudo pronto faz com que acabemos privilegiando o carboidrato, os pré-prontos, os congelados, processados, ultraprocessados. Alimentos ricos em açúcar, em conservantes, estabilizantes e acidulantes. E pobres em nutrientes, cores, sabores.

Esse mergulho no hortifrúti foi essencial. Para refletir sobre mim mesma, o que estou sendo, como me vejo, como me alimento. Ver minhas unhas mais fortes, meu cabelo parar de cair, a pele do rosto mais bonita. Sim, bem clichê, ficando mais bela de dentro para fora.

E é um choque. O vício do açúcar, os momentos de abstinência (sim fui reduzindo açúcar e derivados de vaca, não tirei totalmente mas diminui bastante), que traz um certo nervosismo, euforia, ansiedade foi aos poucos dando lugar para a saciedade, para uma tranquilidade, um prazer em comer. Que se estende para o prazer de ir buscar, pesquisar alimentos e receitas, de frequentar a feira, de lavar, temperar, preparar cada um desses alimentos, até se transformar em uma saborosa refeição.

Dá um certo trabalho, e precisa de um pouco de força de vontade. Mas vale muito a pena.

Tenho sentido muito prazer nisso tudo. Fiz as pazes com a cozinha.

Acredito que por algum tempo a cozinha foi vista como espaço de opressão das mulheres, que ficavam confinadas ao reino do lar, e ao fogão. E ainda é naquelas famílias onde lugar de mulher é na cozinha, onde só as mulheres entram, fazem e organizam este espaço, onde macho só entra carregando sacola. E embora meu companheiro se interesse em aprender, se arrisque a fazer algumas coisas, obviamente que o grosso, a maior parte fica para mim. Sim, questionei se isso era mesmo uma vantagem, ou se eu estava retornando para o lugar da dona de casa – já basta ter um bebe, não estar trabalhando, ficar bastante restrita em casa.

Mas veja, a cozinha pode também ser o espaço de independência e liberdade, onde podemos aprender sobre nosso dia a dia, sobre a natureza, sobre a integração com o ambiente e sobre nossa saúde. Aliás é um lugar maravilhoso para se investir em saúde, em realizar experimentos, em ocupar mentes, mãos e afetos.

Há lindas filosofias orientais que oferecem uma visão que considero mais acertada sobre nós mesmos. E nestas maneiras de ver, o ser humano (especialmente o urbano ocidental) está muito infantilizado, muito dependente, e precisa se responsabilizar por si próprio. E essa responsabilidade de si começa em casa – limpando a própria sujeira, fazendo a própria comida. Não terceirizar este processo. Independente da condição financeira, há um certo ranço colonial de desejar ter funcionários para fazer isso. E há um ímpeto de auto cuidado e independência em se responsabilizar por seus espaço, sua alimentação. Porque o espaço da casa, e especialmente o espaço da comida gera e demanda muita energia. Para além dos alimentos e dos nutrientes, há a energia que desprendemos no preparo, o ingrediente secreto, o “amor” que é percebido quando nos alimentamos com uma comida saborosa. Fazer com cuidado, atenção, afeto é um diferencial em qualquer preparo. É um cuidado de si. E é uma doação de si.

E é uma sensação maravilhosa perceber-se em uma mudança interna, de dentro para fora, provocada pela maternidade e pela urgência de uma necessidade de minha filha. Como estou crescendo e aprendendo com a maternidade. Em paz. Sem raiva, sem culpa, sem stress. Ainda tenho muito para aprender, sei que vamos passar por diversas fases, mas só de proporcionar uma reflexão e uma transformação na alimentação da casa toda é maravilhoso.

Para adequar ainda mais este processo centrado na criança fomos orientados pela pediatra a procurar uma nutricionista. Isso me alegra tanto. Uma pediatra que não se arrisca a fazer receitas, que reconhece o valor de outro especialista e do trabalho em equipe, ao passo que a nutricionista em questão também está atualizada em sua área de domínio, conhece e compreende as necessidades do bebê, da família, e as novas pesquisas da área. Aí é de matar de amor uma mãe que “só” deseja o melhor para sua filha, sua família e para si mesma. Foi também uma ótima oportunidade de tirar dúvidas, e de ter a orientação necessária, pois apesar de ser um processo “simples”, muitos pequenos detalhes são bacanas de conhecer, como as manobras de desengasgo, os alimentos potencialmente alergênicos, a oferta gradativa, e os mitos, as coisas antigas, ultrapassadas. Me sinto confiante e feliz em começar este processo com a Tatá, pois ela está crescendo rápido e poder estar informada, empoderada, atenta às necessidades dela, bem orientada pelos profissionais, e mais do que tudo, em paz comigo mesma, sem culpas, sem neuras, com certeza vai ajudar a ela se desenvolver da maneira mais natural e saudável possível.

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Ainda sobre o parto

Me chamam de romântica por acreditar que o parto deveria ser um trabalho espiritual.

Falaram que meu texto não tem valor porque não é cientifico.

Me julgam de ingênua por defender uma imersão no processo de parto, por acreditar que há um mergulho que muda profundamente corpo e alma da mulher.

Me disseram que o que eu escrevi sobre parir é um desserviço porque idealiza e fetichiza o parto, realocando a mulher na condição de femea mamífera, enfeitando com gliter e menção a deusa estabelecendo uma nova forma de opressão as mulheres.

Em algum ponto que eu não entendi ainda disseram que eu fiz a distinção entre parto vaginal e cesária, e que ninguém é menos mãe por ter cesárea.

E ainda me chamaram de machista.

Logicamente tais sentenças mexeram muito comigo.

Eu, que acredito no direito das mulheres, na humanização do parto e da assistência, eu que defendo o protagonismo da mulher e da criança.

Eu que não julgo, busco não agredir, não criticar de maneira direta ou clara certas escolhas – que na verdade não tem nada de escolha, pois não há uma real consciência da implicação das consequências da mesma, vide mulheres que fazem cesárea eletiva porque são induzidas pelos médicos e sua conveniência e que não apresentam os riscos da cirurgia e os benefícios do processo natural – mas procuro aceitar, compreender que estão imersas em sistemas sociais opressores que muitas vezes nem tem clareza da existência e que ainda mencionam que fizeram cirurgia porque quiseram, e usam o bordão “meu corpo, minhas regras” como se estivessem fazendo algo fora da regra.

Fiquei intrigada.

Como a linguagem lírica pode ofender tanto? Se eu tivesse escrito um texto dissertativo, racionalista, racional talvez tivesse um pouco mais de receptividade, já que acredito nessas coisas que cito acima.

Por que o sagrado feminino é visto como opressão machista? Se, principalmente no Brasil, vivemos sob o domínio de religiões judaico cristãs, que são primordialmente centradas em um Deus masculino, onde a figura da divindade feminina foi excluída, ao passo que diversas outras religiões buscam a representatividade do feminino divino nos mostra a inversão do poder?

Como destacar o protagonismo e a mudança pessoal da mulher no parto é reducionista e ingênua?

Sim acho um absurdo a maneira como o parto é encaminhado. Desde o diagnostico até a saída do bebe ou sua retirada, as violências obstétricas, as cirurgias desnecessárias, os procedimentos invasivos …

Mas me espanta mesmo é o afastamento das mulheres da conexão com sua realidade feminina.

Não, isso não é afirmar ou aceitar a exclusão social e a submissão masculina. Quando falo de realidade feminina falo do poder de gerar e parir. Das condições e das transformações psíquicas, físicas, espirituais da mulher. Que é diferente do homem. Que tem questões próprias, que tem valor próprio, que tem interpretação própria.

Mas ainda temos muito que caminhar.

Falta consciência corporal, falta conhecimento sobre a subjetividade feminina, falta apoio nas redes das mulheres.

Mulheres que falam com mulheres e exercem um poder que objetifica, condena, regula, castra qualquer manifestação das mulheres. Por qualquer digo qualquer coisa que saia do padrão logico racional cientifico – que é também uma forma de dominação masculina da linguagem e do entendimento da vida.

O fato de mencionar instinto, sexto sentido, alma feminina e abordar um lado espiritual de um fenômeno especificamente da mulher, simplesmente traz a crítica racionalista de que estou operando dentro do sistema de opressão das mulheres.

Porque na luta do poder feminino, algumas afirmam em seus posicionamentos que é preciso abrir mão da subjetividade e do inconsciente feminino, que não há distinção entre homens e mulheres, e que afirmar a subjetividade é abrir espaço para a dominação masculina.

E enveredamos para o extremismo. Para a negação de tudo que nos alimenta, nos conecta com a natureza, nossa origem animal, nossa relação com os filhos, nossa constituição corporal, nossa sensibilidade e criatividade, nossa inteligência, nossas capacidades, nosso poder.

Ainda temos muito que caminhar.

De minha parte só me resta afirmar sim, o direito a exercer e buscar o lirismo, a intuição, a conexão com o sagrado feminino e o inconsciente feminino.

Sem que isso signifique aceitar a opressão e submissão masculina.

E ainda gostaria de afirmar que outras mulheres como Laura Gutman e Clarissa Pinkola estão aí contribuindo para a expansão de uma compreensão do inconsciente da mulher, das questões especificas da mulher.

E enquanto as próprias mulheres não tiverem acesso a esta compreensão, enquanto não reconhecerem e investigarem sua própria constituição, não haverá poder feminino.

 

Missão: maternidade

Meu companheiro deixou escapar que sente saudade de ter tempo pra ele, tempo de adulto, fazer coisas de adulto. A vida com bebê é cansativa, um mergulho intenso e profundo na infância e não sobra praticamente nenhum espaço para atividades adultas, sair, beber, assistir um filme ou qualquer coisa do tipo. As poucas horas depois que o bebê dorme e poderíamos investir em alguma atividade, estamos cansados demais para qualquer coisa, e logo precisamos dormir, pois em breve ela acordará de novo. É verdade que não há espaço para descanso e distrações, e que são todos os dias, sem feriado, fim de semana ou férias. Mas ainda assim fiquei um pouco chateada, será que ele não está curtindo a paternidade? Será que apesar da dedicação e presença (coisa rara nos dias de hoje) ele ainda gostaria de estar em outro lugar?

Depois refleti um pouco mais. Vejo diariamente relatos de mães exaustas, algumas infelizes e deprimidas. Vejo as nuances e profundidades do puerpério, baby blues, depressão pós parto, se estendendo pela vida do bebê e da mulher, as vezes por anos. Muitas mulheres se ressentem de alguma forma dessa mudança brusca e profunda que um bebê traz a vida de uma mãe.

Não é errado, nem feio nem egoísta desejar outras coisas. Ainda mais na sociedade paternalista e machista, onde se relega à mulher a maior parte da responsabilidade, e libera os machos. Também não quer dizer que não ama o filho. Apenas significa que o adulto é um ser complexo, que precisa de mais atividades do que “apenas” supervisionar um novo ser. A felicidade depende de tantos fatores não é mesmo? Alimentação, repouso, divertimento, segurança… Então quem sou eu para julgar o que outra pessoa sente, o que faz falta ou o que é necessário para que ela seja feliz?

Mergulhei em meus botões então. Será que eu tenho algo de errado? Eu não sinto nada. Não sinto falta do que eu era nem do que eu tinha. Não sinto falta das horas que me dedicava me embelezar, fazendo escova, maquiagem, depilação. Não sinto falta das horas que passava lendo, estudando, anotando, refletindo sobre assuntos diversos. Não sinto falta de contato com outros adultos, beber, conversar, sair, assistir peça de teatro, filme, dançar, madrugar, dormir até meio dia. E mesmo o trabalho, não sinto falta por mim, sinto necessidade de ter atividades produtivas para promover uma vida melhor para minha filha. Mas não uma “falta” que dê sentido a minha vida.

Gosto dessas coisas? Gosto, muito. Provavelmente voltarei a fazer algumas delas quando o tempo me permitir.

Mas desde que minha bebê nasceu não tenho tempo nem pra pensar. Mal consigo pentear os cabelos e escovar os dentes. Sentir saudade exige tempo para nostalgia. Só penso, ajo, estudo em função da criação da minha filha. Não consigo pensar em outra coisa. E mais: não consigo me interessar em outra coisa. Não há nada no mundo mais interessante do que criar um ser humano.

E apesar das noites mal dormidas, do cansaço eterno, do desinteresse em outras coisas da vida, nunca me senti tão conectada com minha alma, minha missão de vida. Sinto que estive me preparando para este momento há muito tempo. Não me levem a mal. Não estou dizendo que mulheres nasceram para ser mães, e que o chamado seja natural e instintivo. Nem que homens não podem ou não devem sentir isso. Estou dizendo que há algo de misterioso e grandioso que existe quando se reconhece o tamanho desta missão, o desejo de cumpri-la com o corpo, a alma e o coração.

Ter um filho é mais do que ser responsável, e exige mais do que se tornar maduro. Nos coloca em contato com a verdade das almas, o desejo de um destino que esteja coerente com a missão e anseio do próprio coração.

Sair, me divertir, me distrair não é prioridade, e não é minha vontade, sabe. Não sinto nisso alguma utilidade, ou algum “bem” que me faça tamanha diferença para sentir falta. Eu não sinto pena de mim mesma nem me ressinto por ter um bebê e não poder fazer certas coisas. Pelo contrário, sinto que tenho uma coisa muito importante, séria, divina para realizar, enquanto outros não tem tamanho compromisso. Me sinto muito importante, muito grandiosa ficando em casa.

Minha batatinha, a coisa mais importante da minha vida, deu um sentido, uma orientação, uma missão para mim. Que transcende o compromisso “com ela” ou com a “responsabilidade” de ser mãe. É algo maior do que as pessoas, maior do que eu, maior do que ela. É algo profundo e poderoso, e no entanto, sutil e etéreo. Está na conexão da mente-alma-espírito, e com o grande poder da Grande Alma, que nos une enquanto ser humanos, filhos descendentes de uma mesma origem, uma mesma mãe e um mesmo pai. E de dar continuidade a existência, em contribuir para um mundo melhor, formar um ser humano melhor. Dar a ela assistência para continuar existindo, alimento, aconchego, segurança, estrutura emocional. É como se eu tivesse dando isto de presente ao mundo. Um mundo tão triste, tão violentado, tão surrado. Necessitado de afeto, de segurança, de comprometimento.

Eu amo esta sensação. Estou ligada ao meu destino verdadeiro. E vou fazer tudo que for possível para realizar essa missão da melhor maneira possível. Mesmo que para isso eu deixe de trabalhar por um período; eu deixe de sair e encontrar pessoas; eu deixe de conhecer trabalhos e de fazer redes de contato; mesmo que para isso eu tenha que me defrontar com necessidades viciantes do dia a dia, com minha família, com meu marido, minha mãe. É um exercício de presença, de pensar e viver um dia de cada vez, e de mergulhar na existência em sua essência, as prioridades, as principais necessidades, e as distrações que nos impõe essa sociedade. E com o que desejamos para o mundo. Pensar a vida não se encerrando em mim mesma, mas como uma continuidade, um coletivo, algo que se estende, continua, e segue. É um alivio saber que não morrerei em meu corpo – algo de mim fica para depois.

O parto

O nascimento de um bebê. É o rompimento. A maior catarse que existe. Rompe-se terra e firmamento. Ficamos em suspenso: quem vem do céu? Alguém irá para lá? Suspense e suspensão do tempo-vida.

Confronta-se vida, morte, sentimento, pensamento, sexo. Tudo. Ao mesmo tempo. Compulsivo, convulsivo. Progressivo.

E a mulher passa por isso. Cada mulher parindo recria e revisita o big bang. A criação do universo, explosão, força, emoção.

E neste processo, ela mesma renasce. Morre, ao matar o que era antes, e agora não será mais possível na presença de um outro que é parte de si própria. E pari a si mesma uma outra, junto com seu duplo, seu broto, seu dedo, seu outro: seu filho.

Lindo! E cansativo. Exaustivo. Entorpecente. Mergulho na escuridão.

E dor. Muita dor. Uma dor absurda, uma dor obscura, pulsante, crescente, explosiva.

A sensação de partir-se ao meio. Corpo, alma, coração. Tudo.

Se há algo que me espantou no trabalho de parto é a dor. Por que tanta dor meu Deus? Por que tão difícil? Porque a vida há de ser tão dura? Como podemos desejar tranquilidade na vida se o ato de nascer é tão dolorido e difícil?

Quanto entendimento podemos extrair da experiência dessa dor? Entendimento da vida, de tudo que existe. Entendimento da paixão, do medo, do caos, da violência, da amplitude do universo, do tamanho ridículo do ser humano. Entendimento da amplitude e da insignificância. Majestosa e pueril. A DOR DA VIDA. Milagre. Amor.

Não me venham com medicamentos, sintéticos, higienização, assepsia. Analgésicos, bisturis, luvas e injeções. A esterilização da vida impede o contato com a realidade da vida. Isso nos afeta profundamente a alma! De todos nós! Uma humanidade que não quer se sujar. Um inconsciente coletivo inteiro fugindo da sombra. Isso só pode resultar em sofrimento, e doença. E pasmem: mais dor. A dor não revelada. A dor que se evita é a dor que mais dói. Porque você finge que ela não existe, e ela insiste em se fazer viva. Ela não permite ser ignorada. Mas você a ignora. E tarda mas não falha – na madrugada, no travesseiro, ou no silêncio do chuveiro ela pulsa. A dor ignorada pulsa diariamente.

O parto é sujo. Sujo de vida. Da mais visceral vida. Sujo de nossas entranhas, nossos medos, nossos fluídos. O parto é a pulsação orgânica da origem da vida. É nosso direito passar por isso. É nosso dever entrar em contato com isso. Cai a máscara, tira-se a maquiagem. O corpo nu, sem retoques, ao vivo, ele se basta. Só se chega no outro lado da margem serena se atravessarmos o rio. Pegar um atalho não nos garante tranquilidade. Vivemos atormentados por fantasmas do rio em que não entramos. A mulher que não pariu, a criança não parida, o pai que não assistiu – a humanidade inteira perdida.

Tanto mistério e tanto encantamento que provoca cientistas, filósofos e poetas. Ali. Exposto dentro. Dentro da carne viva de uma mulher que exausta berra, e com seu berro reproduz a onda primordial divina OM. O som primordial.

E é um absurdo o aprisionamento do nascimento em paredes brancas e esterilizadas. O parto é o trabalho mais espiritual e mais concreto que existe na face da vida da Terra. Era pra ser acompanhado somente por mulheres guia espirituais e que já tenham vivenciado tal rompimento. Nenhuma mulher sem filho deveria ser capaz de acompanhar um parto. Nenhum homem deveria ter tal habilitação. Estamos falando de como colocamos os seres humanos no planeta. E não de uma doença, e não de um caso raro ou exceção. Estamos falando de continuidade. Da história da nossa espécie. De prole. De parto, sangue, menstruação, ovulação, cólica, contração, puerpério, rompimento na alma. Qual médico estudou isso em sua complexidade?

Por que é fatal.

É uma passagem. Um túnel. Um caminho. Que ninguém sabe o que estará do outro lado.

Como não? Vem um bebê lindo, nasce uma mãe.

Também. Mas as camadas de vida que essa mãe atravessa, quase ninguém sabe dizer. Ninguém sequer arrisca enunciar essas dores.

Entramos em contato com nosso nascimento e vida, e com o mais comum em todas as vidas. A respiração, a pulsação, o instinto. Mulher-bicho. Mulher-loba. Mulher-universo.

Dentro da barriga e para fora dela, a recriação do mito da origem.

Morte a Adão e Eva. Morte ao big bang. Morte aos teóricos, teólogos, filósofos.

O segredo da origem da vida está guardado somente com as mulheres que parem.

Precisamos falar sobre isso. Homens, deem licença. Homens, espantem-se, admirem, repousem, respeitem. Aceitem o poder divino feminino colocado ali em uma mulher. Permitam que expurguem suas dores. Acompanhem, assistam mas não interfiram. São as mesmas dores da humanidade, dos homens e das mulheres, da mãe, do pai, do filho, da filha. Mas é a mulher que faz.

E da placenta. Porque fingimos que a placenta não existe? É ela a concretude de todo o trabalho, o resquício, o souvenir, a relíquia divina que nos permite curar e atravessar por isso. É ela, placenta o espirito santo materializado. O anjo que traz o filho. O sopro divino encarnado. Não pode ser descartado como uma caixa de remédio vazia. É preciso dar um encaminhamento para ela. Seja seu sepulcro, seja seu retorno, reciclado. Plantada, ingerida, carimbada. Isso vai facilitar a nova vida.

Ritual. A vida renasce e não permitem o ritual. Estamos carentes de rituais verdadeiros, pois os portais se abrem, e só pensamos em medidas cardíacas e assepsia. Não nos permitem nem acender velas para que se faça a luz.

E é isto que vai determinar o tamanho e o tempo da dor que essa mulher vai sentir, nas penumbras do puerpério.

Mulheres. Isso é urgente. Gestantes e pós-gestantes – precisamos nos unir. Orar por nossos filhos e filhas, e pelo nascimento dos que vem depois. Precisamos tomar as rédeas, aceitar o afloramento de nossos instintos e sexto sentido.

E olha que curioso. Só consegui produzir esse texto ao terceiro mês completo do nascimento de minha filha.

Precisamos falar sobre isso.

 

Dia das mulheres 


Ser mulher nos dias de hoje é perceber que a mulher veio primeiro, mas o homem que veio depois vale mais.

É perceber que não há respeito com as velhas, as anciãs, as matronas, avós. Mas há quando falamos de coronéis, doutores, senhores.

Nem há respeito com as crianças a quem chamam de “novinha”. Nem há respeito com as jovens, a quem chamam de piranha, puta, gostosa, vadia. Nem há respeito com as adultas, a quem chamam de vaca, feia, gorda, louca, velha. Não há idade em que se respeite uma mulher.

É perceber que se você gera uma pessoa dentro de você, se descobre que o ritmo é lento, é calmo e pleno de transformações, que precisa de calma e coragem… e percebe melhor as aberraçoes de pressa, da vigilância, da violência, da ordem, da repetição.

Ser mulher é ser analisada como aquela que tem inveja do penis, quando na realidade os machos é que tem inveja da gravidez e do peito.

Quando se é mulher você sabe que todos são gerados em um ventre, alimentados em um peito, e aliviados em uma buceta, mas ainda assim tratam seu corpo como um mal profano, não como o templo sagrado que é.

Ser mulher é defender o parto natural – no tempo que demorar, sem intervenções, medicações, cirurgias – e ser chamada de louca, hippie, radical, comparada a uma índia sem civilização e perceber que se permanecermos em silêncio e respeitando as regras, vai chegar um dia em que mulheres não vão mais saber parir, e todos terão seus nascimentos roubados, violentamente arrancados do útero. 

Quando se busca o sagrado feminino, se percebe que os egos, as hierarquias, as propriedades são todas fálicas e patriarcais. A calma, a fartura, a generosidade, o acolhimento são elementos do feminino. Escassos porque vigiados, fortes porque sustentam a vida.

O mais irônico em tudo é que os próprios machos são vítimas e algozes, eles mesmos se tornam pressionados e frustrados pela ordem que estabelecem e cumprem e defendem. Se sentem sozinhos, se vangloriam de falsas virtudes e sofrem, em suas almas a carga feminina negada.

 É tudo invertido, doloroso e brabo, mas pasmem: dentro de cada mulher repousa a serenidade da vida. 

Para mudar, basta o silêncio e ouvi-la.

Meu corpo não me pertence mais

O meu corpo não me pertence mais. Ele é um ninho. Uma incubadora. Um berço, uma cama macia protetora para minha filha.

Vou crescendo, te envolvendo, me preparando, te acalmando. Me transformo, me informo, escuto e estudo, intuição e opinião vou formando, me tornando aquilo que serei a partir de você.E só eu sei como dói. Esperar, guardar, proteger, resguardar, aguardar. dsc_0207

E crio ao redor de você um escudo protetor do seu tempo, seu ritmo, sua história, sua vida.

E só eu sei como é difícil, minha filha, nesse comecinho da sua vida cercar nosso ninho da intervenção. Aqueles que deveriam nos proteger, nos apoiar, nos dar força e confiança nos tiram o tapete, geram dúvidas, arrependimentos, sofrimentos.

Será que imaginam que querem mais do que eu? Ou que você?

Será que julgam saber mais do meu corpo e do seu?

Desnecessários, dolorosos, desconectados.

A medicalização da vida, da saúde, nos impõe regras e comportamentos que nos roubam a autoridade sobre nossos corpos. Médicos criam medidas parâmetros protocolos que nos interrompem, nos expõe, nos invade, nos machuca. Família e amigos geram uma onda de expectativas ansiosas, comentários iludidos, desejos macabros, comportamentos condicionados.

E eu sigo aqui a única escolha que realmente fiz: respeitar você, eu, meu corpo, seu corpo, meu tempo, seu tempo.

E só em fazer isso já é resistência já é força desgaste, guerra.

Contra aqueles que massacram e mutilam nossos corpos; contra aquilo que se estabelece como normal padrão comum. Contra o que ninguém questiona ninguém pensa a respeito. Contra a máquina, a velocidade e o relógio. Contra protocolos, medidas simétricas, contra o “é assim” tentando mostrar que o coerente seria “comigo foi assim”.

Eu sigo o tempo natural das coisas. Que não é o “meu” tempo. É o tempo outro, o tempo da essência, da vida, da natureza.

Meu corpo não é o “meu”. É do mundo, é da vida, é do ninho.

E quem disse que não dói? Não ser mais eu? Abrir mão do controle, da fórmula, do raso, do pronto? Sofro. Com pesar, dificuldade, quem disse que é fácil?  Não é. Carrego meu fardo, mas apenas o meu. Resistir é preciso.

Prefiro me entregar na mão da deusa que dorme em meu ventre do que na mão dos egos que despudoradamente nos roubam a beleza.

Com um único objetivo:

Gerar um ser humano mais dócil, mais maduro, respeitado, escutado e que pode amar, respeitar, escutar.

Em tempos de guerra, a resistência pacífica é a maior transformação.

Amor em tempos de guerra.

Me frustro, lógico. Até mesmo dentro de mim existem expectativas, desejos. Eu crio ou deixo que entrem não sei. Como quero segurar você meu rei leão e mostrar pra selva toda. E ainda não posso.

Ainda aprendendo a viver um dia de cada vez. E você me lembra cada dia o que é estar presente.

Não ter controle sobre nada. Nem sobre mim, sobre o que ainda resta de mim. Sou outra coisa hoje.

Alguma coisa entre. Entre o que fui e o que serei. Pronta pra entrar em ebulição. Uma pluma no chão prestes a levantar vôo. Mas o vento não bate. Quando será? Só você sabe, minha deusa. Eu sou uma serva do seu bel querer.

Enquanto os planetas não se alinham, o segundo sol não chega entôo meu mantra, para me consolar…

Eu aceito, eu quero, eu posso, e estou preparada para isso.

Eu aceito, eu quero, eu posso, e estou preparada para isso.

Eu aceito, eu quero, eu posso. Estou preparada para isso.

FINAL DE GESTAÇÃO

 

dsc_0024Tempo de gestar. Tempo de esperar. Tempo, tempo, sempre tempo.

Nada acontece, enquanto tudo acontece! Olhos, boca, intestino e pulmões se formam. E eu? Aqui, perdida entre o tempo e o espaço, entre querer e fazer, entre poder e não poder.

Angustia, ansiedade. A vida nunca mais será a mesma. Ou a vida vai voltar ao normal? Mal consigo andar até o banheiro. E preciso tanto, tantas vezes!

Sofrimento? Peso. Calor. Falta de ar. Queda de pressão. Desconforto. Dores no quadril, na coluna, cólicas, contrações aleatórias.

Eu me transformo. Sem o meu próprio consentimento. Meu corpo faz tudo sozinho, no automático, é lindo, é chato, é dolorido, é milagroso.

Quero me livrar. Quero mudar. Mutar. Vamos juntas, amiguinha, para outra vida?

O que esperar? Dores? Cansaço? Preocupaçoes? Amor. Muito amor mais amor tanto amor de explodir (literalmente) de amor.

Fúria. Força. Natureza, aqui estou, sua imagem e semelhança. Big bang em escala poeira cósmica, Fertilidade e gratidão divina em porções fracionadas de formiga. Comprometida até as vísceras.

EU, minha antiga eu, minha nova eu, e minha mini eu, todas nós aqui, discutindo, brigando, se amando, convivendo. Compartilhando comida, água, cama, pensamento, sentimento. Chute no estômago, cabeçadas na pelve. Cotovelada no fígado, pior coisa que existe.

Estou sofrendo. Estou em paz. Estou na lua. Estou no chão. Estou em todos os lugares. Onipresença. Divina?

Dentro de mim repousa, ansiosa e tranquilamente, uma outra. Que neste momento ainda sou eu.

Sabia que pode chegar a dez meses?

 

Das crises da gravidez e unicórnios 


Gestar é um estado muito especial, pra não dizer estranho. Dizem que é lindo, romantizam, admiram… a mulher se torna um ente respeitado e venerado, abrem os caminhos – e os assentos para elas, com todo respeito (quando há algum)… mas ninguém fala das dificuldades, dos surtos, das crises, dos inconvenientes…Estar grávida é abrir um parêntese na sua vida. Eu sou …. (nome, profissão, hobby, lazer) mas agora estou grávida. E talvez não consiga responder adequadamente quando solicitada por essa razão. Primeiro golpe na vida da mulher – não conseguir agir, responder, fazer coisas que anteriormente eram simples, como se concentrar no trabalho, ir até o mercado e trazer o que deseja, ou simplesmente limpar a casa.

Por um lado, uma medicina arbitrária, autoritária, alopática, cheia de ameaças, fórmulas prontas e procedimentos invasivos, violante e violentos. Uma medicina intervencionista, desumanizada e que se acha em poder superior a própria mãe em relação ao trato e saúde do bebê. Eu realmente queria entender a mente de uma pessoa que opta pela profissão de obstetra e decide que não faz parto, só cesárea. E todos os procedimentos que não são baseados em evidência científica, e sim em cultura e repetição dessa medicina doente. 

Não me levem a mal, sou muito a favor dos avanços científicos e da medicina moderna. Só que a difusão de técnicas e cirurgias simplesmente por conveniência, para acelerar o tempo do atendimento, ou para ganhar mais dinheiro é um absurdo. É urgente uma formação mais humanizada para os agentes de saúde, especialmente os médicos. 

De outro lado, uma comunidade de pessoas ( amigos, familiares, conhecidos) ansiosas, às vezes beirando a histeria para saber o sexo, o nome, o hospital, a data… uma pressa, uma agitação que é o oposto do que a gestante precisa… afinal gerar requisita tempo, paciência, doação…

Sem falar dos palpites… conselhos não pedidos, experiências infelizes, reflexos da sociedade doente. Todo mundo meio que se sente no dever ou na condição de aconselhar dizendo as maiores barbaridades sem nem perguntar o que você está pensando sobre tal assunto ou como está se preparando. Reconheço a boa intenção em muitos, mas me dói a arbitrariedade e a banalidade de conselhos que ignora uma série de questões que hoje em dia estamos debatendo se realmente são saudáveis ou fazem bem para o bebê – só pra citar alguns exemplos: aleitamento materno exclusivo, dormir no berço, uso de chupetas e mamadeiras, fraldas descartáveis ou de pano, introdução alimentar, alimentos industrializados… reflexos de uma sociedade de consumo, pós moderna e caótica como a nossa.

E no meio disso tudo, um corpo, que se transforma a cada dia, mudando tudo na rotina da mulher. Desde o banho, até as roupas, passando pelos hábitos diários, interesses e auto estima.

Em nenhum momento eu me senti bonita. Me sinto estranha, inadequada, desengonçada. Inchada, pés largos, peitos e barriga imensos. Muita acne e alergias de contato, cabelo oleoso (a vida toda tive cabelo seco), postura horrorosa, coluna que puxa ora na lordose, ora na cifose… ombros caídos, braços largos, sono e cansaço absurdo… em oposição a dificuldades de dormir, palpitações, falta de ar, fome exagerada, enjoos… e crises. Vontade de chorar, tempestades volúveis que surgem do nada. Queria me fechar no meu canto e solucionar os problemas com uma varinha de condão.

Nas crises mergulho em sentimentos variados que vão desde eu não consigo mais varrer o chão até coisas profundas de auto estima, maturidade, crescimento pessoal.

Não tem mais espaço pra infantilidades. É tempo de crescer, outra criança toma a vez. Tudo que foi ficando pra trás volta de maneira assombrosa. Sentimentos reprimidos, decisões adiadas, pequenos problemas mal resolvidos.

E ali, no auge da crise, uma pessoa te olha. Por dentro. Tem uma pessoa te vendo, e vendo tudo, acompanhando teus pensamentos, sentimentos, decisões. Talvez ela não compreenda tudo, mas com certeza acompanha… como um filme japonês sem legenda, ou um cachorro que escuta a conversa do dono. Não tem capacidade de compreender a linguagem, mas a comunicação se dá, isso é fato.

Duro encarar a humanidade de nossos processos, os limites, as falhas, as sombras. E ainda ter a certeza de que é justamente essa parte que vai refletir na pessoinha, aquilo que você ainda não digeriu, esconde debaixo do tapete ou no fundo do esquecimento da sua memória.

É preciso muita calma e coragem para se tornar mãe. Calma para não surtar a cada minuto. E coragem para encarar a si própria e a uma sociedade inteira mal resolvida… porque o ser humaninho que vem não tem culpa, não tem moral nem julgamentos… isso tudo fomos nós que criamos.

Meu marido teve uma conversa muito franca comigo e disse que pra ele as grávidas são como unicórnios. Não tem muita explicação, apenas deveriam ser deixadas a uma vontade… receber uma licença poética e fazer só o que quiserem e os outros que aceitem , com respeito. Porque não dá mesmo pra entender a não ser que se passe pela situação.

Final de ano

img_2609 Dá pra comemorar um ano ato demoníaco quanto 2016? Tantas dificuldades coletivas, retrocessos políticos, apertos econômicos. Mas para mim foi ano de tantas realizações pessoais que quase fico tímida por ter tido um ano tão bom num cenário social tão desastroso.

Minha mãe foi aprovada para estudar em Chicago, tive a oportunidade de conhecer essa cidade incrível em dois momentos diferentes: inverno e verão. Sempre acho que sair do país nos leva para dentro do nosso, aquilo que nos é essencial e nos permite ser o que somos, e nos dá saudade e também orgulho. Se reconhecer brasileira entre estrangeiros é um grande aprendizado, e fazia tempo que eu não vivia tão intensamente este momento.

Consegui realizar uma grande obra artística, ao lado de meus parceiros de trabalho e criação, o Grutta Teatro, finalizamos e estreamos a peça mais acabada artisticamente e mais próxima daquilo que desejamos produzir como arte. Um trabalho artesanal, construído tijolinho por tijolinho, com nossas próprias mãos. Nós dirigimos, produzimos, preparamos, encenamos, atuamos. Com qualidade. E não porque somos talentosos ou porque somos super, mas porque nos dedicamos, trabalhamos mais de um ano no processo, investimos dinheiro, tempo, amor para que este sonho se realizasse. E foi maravilhoso. Nunca estive tão orgulhosa do que eu mesma fiz, e nunca me senti tão bem acompanhada. Acho que na vida existem duas dificuldades: primeiro descobrir o que você quer, para o que você serve, sua paixão, sua missão. A segunda é encontrar os parceiros certos para realizar a jornada. E este trabalho, Cruzadas, construído a muitas mãos, reuniu a minha equipe dos sonhos, e conseguimos de fato um trabalho de construção coletiva, compartilhada. Um grande esforço individual de cada um dos envolvidos, e também um exercício de afeto, de aceitação, ceder, propor, não deixar a peteca cair, manter firme. Foi lindo.

Consegui concluir a minha segunda graduação, em Artes Cênicas, um grande desafio neste ano, pois conciliar os trabalhos por fora, e a gravidez, além de um certo retrocesso no percurso pessoal, às duras penas, conquistei meu diploma superior na área em que atuo. Depois de uma certa idade é muito difícil se submeter a processos escolares, abdicar de todas as noites, de muito tempo (precioso na vida adulta) para estar simplesmente sentado ou recebendo informações enlatadas e convivendo conflitos micareteiros – fora de época. A média dos colegas tem 20-25 anos e sou dez anos mais velha. Eles são uns amores, me tratam muito bem, e tento ser cordial e companheira, mas o choque das gerações é inevitável. O que eles desejam, os conflitos que vivem, as aspirações… tudo muito distante da minha identidade, e da minha realidade. Foi um desafio mesmo, pois evitei conflitos, mas os emaranhados sempre aparecem, e lá estou eu revisitando lugares de mim mesma já superados, resolvidos pela terapia ou esquecidos pelo tempo. Esquecidos?! Estar em contato com o novo, tendo idade (e capacidade, diga-se de passagem) para estar no lugar do professor ao invés de aluna, gera um sentimento difícil, mas persuadi, justamente porque me deixou mais forte, sabendo que realmente eu sei em qual lugar eu devo estar. Estou em busca de um lugar ao sol, e a trilha está mais iluminada agora.

Construí novas parcerias, e novos desejos de trabalho emergem desejando realizar. Um projeto para trabalhar o feminino, o cuidado, o terapêutico, de forma leve e profunda, temas e propostas a tantos anos encubadas dentro de mim e que levei tantos anos para amadurecer uma proposta. Estou feliz com a possibilidade deste projeto florescer uma nova jornada que deve dar muitos frutos em um futuro breve.img_2605

E por fim, a maior surpresa de todas, engravidei. E no engravidar, me revirando as vísceras por dentro, me transformo, amadurecendo e descobrindo muito de mim mesma, e do mundo, das pessoas que compartilham o mundo conosco. Me descobri mais atenta, mais paciente, mais ouvinte. Vejo as pessoas pela rua, pela vida, cruzo com elas, e percebo como estamos apressados, distraídos. Caminhamos entre as pessoas e não as percebemos – e talvez o mais grave, não percebemos a nós mesmas. Se tornar mãe, gerar um ser humaninho neste mundo de caos é mesmo um divisor de águas. Atravessar a ponte, e estar do outro lado, ajudando, acolhendo, orientando outros a passar.

Eu sei parece contraditório, talvez até egóico, diante de tantas dificuldades mundanas, eu sendo tao feliz agora, mas 2016 foi um ano tão revolucionário que vai ficar marcado em meu coração.

 

Chá de bebê

Decidimos realizar um chá para encontrar amigos e logicamente, ganhar algumas fraldas para nossa monstrinha. Como não tinha ainda aberto a casa para comemorações, e já estamos aqui há um ano, foi também uma oportunidade de celebrar esta união, esta casa, e também nosso fruto, a barriga.15440490_10210213445389202_8146507521753906834_o

O tema era nuvens, e acabou virando monstrinhos. Lógico, pois em tempos de desconstrução de gênero, de reformas políticas, eu jamais poderia ter uma princesa. Somos uma família de monstros, pai monstro, mãe ogra. Só pode nascer uma monstrinha.

Organizar uma festa é trabalhoso e cansativo, mas muito gratificante. Ver tantas pessoas amadas no mesmo momento, amigos antigos, amigos novos, amigos de tempos de vida diferentes, pessoas que cruzaram nosso caminho e decidiram permanecer, de alguma forma em um contato mais permanente – mesmo que se passe anos sem reencontrar, mas aquela pessoa esta ali, na sua rede social, na agend a do telefone, e nos contatos queridos para convidar num dia como este. Gente que eu nem esperava, dando tanto, gente que eu esperava mostrando pouco. Ou em pensamento. A vida é assim.

img_2518Sou mesmo uma pessoa de sorte. Por muitos anos da minha vida fui uma pessoa tímida e solitária, especialmente depois de me mudar para o Rio de Janeiro tive muita dificuldade em fazer amizade, e encontrar parceiros. Passei a adolescência introspectiva e perdida, e mesmo alguns anos da vida adulta procurando algo que demorei a descobrir.

Hoje, adulta, 35 anos, uma barriga de 7 meses, sou outra pessoa. A casa cheia de amigos, parceiros reais, de afeto, de trabalho, de presença. Amigos da vida!

E mesmo em tempos difíceis, tempos de dificuldade politica, financeira, e no mês mais corrido do ano – dezembro – essas pessoas maravilhosas encontraram um tempinho para passar aqui e brindar conosco.

Tenho aprendido tanto com essa gravidez. Sobre o mundo, sobre as pessoas. Coisas que eu já tinha tido lições, lá trás, com minha avó, com meu grupo de meditação, com processos terapêuticos. E que agora se fazem tão claros quanto água. O quanto ganhamos doando, o quanto ficamos felizes por ceder, trocar, ajudar. E o quanto o universo nos devolve em dobro aquilo que geramos.

Hoje eu olho para as pessoas no mundo, no metro, na rua, no trabalho. Estamos todos correndo, perdidos, desatentos. Sofrendo, e na solidão se confinando em espaços egóicos, para nos dar um pouco de prazer, nos isolamos e nos tornamos sozinhos e deprimidos. Tão perdidos de nós mesmos, tão isolados uns dos outros. Doentes e cansados procurando um milagre, um remédio, um carinho.

Quando a cura, a verdadeira cura é abrir, ajudar, oferecer, doar. E é cansativo sim, em alguns momentos, mas faz parte, e passa, e é gratificante, e retorna em dobro. Minha vó Chica era mestra em generosidade e hoje ela habita minha pele e me mostra o quanto eu tenho no meu sangue essa capacidade. Eu tinha entendido “mentalmente”, mas o meu espírito não tinha vivido isso tão intensamente quanto hoje. Olha quem eu sou! Quem diria que aquela adolescente estranha e problemática poderia se tornar essa pessoa feliz, amada, casada, grávida, cheia de amigos e presentes?

E mais, agora dando um passo além. Eu gero alguém, e ao mesmo tempo esse alguém me gera. Estou em processo, trocando a larva por borboleta. Processo doloroso, difícil, se tornar outra coisa, mais bela, mais frágil, mais forte. Se tornar mãe é uma jornada de dedicação, confiança, escuta, doação. E é também atravessar a ponte, e estar do outro lado agora, para dar a mão para quem ainda não passou, ajudar, orientar, apoiar. Estou muito orgulhosa de ter conseguido me tornar isso que sou (não foi fácil, foi uma busca, uma persistência, de muita luta, abdicação, transformações, resiliência, perseverança). Hoje sou feliz, sou calma, sou atenta. Sou mãe.img_2546